O académico Lourenço do Rosário foi, esta quarta-feira, distinguido com o prémio “Joaquim Chissano Alumni, Estudante Moçambicano em Portugal”. A iniciativa, que vai na sua V edição, é promovida pela Câmara de Comércio Portugal-Moçambique (CCPM), em parceria com a Fundação Joaquim Chissano, e visa homenagear moçambicanos que estudaram naquele país pelo seu contributo na investigação, no empreendedorismo e na solidariedade.
Trata-se de áreas que encaixam como uma luva naquilo que é o percurso de Lourenço do Rosário como académico, onde promoveu várias investigações, como precursor do ensino privado em Moçambique, para além do seu enorme contributo para a paz e estabilização do país, como mediador do diálogo político.
Para o Chanceler da Universidade Politécnica, as distinções têm um duplo sentido. “São feitas porque a pessoa não tem mais para dar ou são um recado para a gente continuar o que está a fazer”, disse, sublinhando ter esse misto de sentimento.
Questionado sobre como é que a juventude pode usar aquela homenagem como fonte de inspiração, Do Rosário disse que a juventude, salvo raras excepções, tem o problema de pretender fazer as coisas rapidamente. Fez notar que, ao longo do seu percurso de vida, não precisou de saltar etapas, mas foi fazendo as coisas ponto por ponto, frisando que a pressa em alcançar determinados objectivos nos faz pisar outras pessoas.
Intervindo instantes após a atribuição do prémio, Lourenço do Rosário descreveu o seu percurso como resultado das suas várias vivências: ter nascido em Marromeu, em Sofala, uma curta passagem pelo Malawi, ter crescido em Quelimane, na Zambézia, e ter cumprido o serviço militar no exército colonial português no Niassa. Disse ter sido durante o serviço militar colonial que despertou a sua consciência política, depois de “consumir” poemas e músicas de artistas revolucionários como Chico Buarque, Manuel Alegre, Luís Bernardo Honwana, entre outros.
“Fico muito admirado quando pessoas da minha geração afirmam que nasceram com consciência política. A consciência política vai se ganhando com o histórico de convivências. Quando fui incorporado no exército colonial aos 20 anos, confesso que não tinha consciência política, para mim era consciência social quelimanense ou zambeziana”, disse.
Acrescentou que foi a partir daí que começou a discutir o conceito histórico da guerra justa e injusta e os resultados reais de um conflito em que aqueles que combatiam uma guerra justa também faziam violência, assim como os que fazem a guerra injusta também fazem muita violência. É seu entender que a violência não só se abate sobre os militares, mas também sobre os súbditos, e tudo isso provoca uma inquietude bastante grande.
Por sua vez, Joaquim Chissano disse reconhecer Lourenço do Rosário como uma figura que deu um notável contributo político na facilitação e construção de pontes entre actores políticos desavindos em diversos momentos da nossa história de edificação e consolidação da nação moçambicana.
“O prémio que hoje temos a honra de entregar transcende o reconhecimento do seu passado de estudante brilhante. Este acto quer igualmente reconhecer a excelência da intervenção transformadora na vida política, social e mesmo económica da sociedade moçambicana, como um empenhado defensor do papel transformador da educação, cultura e do conhecimento no desenvolvimento de Moçambique”, disse.
Falou do seu contributo para o estudo das literaturas africanas e da tradição oral, áreas em que desenvolveu investigação pioneira amplamente reconhecida.
Sugeriu à juventude que olhe para o percurso de vida e académico do professor Lourenço do Rosário como fonte de inspiração para um presente e futuro que se fundam nos valores de excelência, dedicação e compromisso social que o prémio pretende celebrar.
