Um jovem cineasta sem dinheiro nem equipamento ainda pode fazer um filme. Basta ter uma boa ideia e investir nela tempo, pesquisa e escrita. Foi este o conselho deixado esta terça-feira pelo realizador moçambicano João Ribeiro, um dos formadores do FilmLab Moçambique, que arrancou nesta quarta-feira na Universidade Pedagógica.
“Nós temos sempre alguma coisa”, afirmou Ribeiro à Mbenga Artes e Reflexões. “Porque se queremos fazer um filme, um documentário, temos um ponto de partida que é a ideia. A ideia determina alguma coisa”.
O realizador, que integra a equipa de cinco formadores principais do laboratório, que inclui ainda Fábio Ribeiro (Moçambique), Samira Vera-Cruz e Emília Wojciechowska (Cabo Verde), e Katya Aragão (São Tomé), sublinhou que a falta de recursos financeiros não deve paralisar os criadores.
“Se eu tiver uma boa ideia, uma sinopse clara, uma história que eu próprio consiga desenvolver, para escrever não preciso de muitos meios”, disse. “Para pesquisar, preciso de alguns, mas posso fazer uma pesquisa que me leva a ter um certo ponto no caminho. Isso, se calhar, já é o suficiente para convencer, para mobilizar outros recursos”.
Ribeiro defendeu que o trabalho de desenvolvimento do projecto, tempo, investigação, escrita e conversas, “já é muito” e constitui “o startup daquilo que é preciso ter”.
Questionado sobre as dificuldades de financiamento que afectam o sector no geral e em particular os seis projectos selecionados, Ribeiro traçou um panorama das fontes disponíveis em Moçambique e na lusofonia.
“Em Moçambique não temos, efectivamente, muitos fundos de apoio”, reconheceu. “O Instituto Nacional Indústrias Culturais e Criativas (INICC) tem uma linha de apoio à produção que devia ser anual, infelizmente não é, e que apoia documentário e ficção. Qualquer desses projectos poderia ir para essa área”, salientou.
O cineasta apontou ainda fundos privados, embaixadas, centros culturais, fundos do meio ambiente e da juventude como possíveis fontes, embora muitos “não sejam transparentes, a gente não saiba aonde, quanto, como”. Mencionou também o fundo de produção da CPLP e da PALOP TV, que “agora poderá ficar anual”.
Para Ribeiro, o caminho para o financiamento aprende-se “batendo porta, batendo pé”. E deixou um conselho aos jovens: “Vai-se a receber negativas, vai-se a receber respostas, ou até não se vai receber resposta nenhuma. Mas é preciso não desistir e continuar a insistir, melhorando sempre através destas oportunidades.”
Financiamento a 100% é raro, mas há alternativas
O realizador esclareceu ainda que, embora existam financiadores que cobrem a totalidade de um projecto, “não são fáceis de encontrar”. A solução, quando o apoio é parcial, passa por combinar diferentes estratégias.
“A forma é encontrar outros financiadores. Caso o primeiro financiador não dê 100% garantidos, temos várias formas de continuar o projecto”, explicou. “Suportar a diferença através de fundos próprios, de fundos de parceiros, conseguir uma rodagem, conseguir comida de um restaurante, uma troca de serviços com um transporte, ou conseguir outros fundos.”
Ribeiro, que testemunhou o crescimento do cinema em Moçambique nos últimos anos, deixou uma mensagem de optimismo e pragmatismo aos novos realizadores.
“O cinema é uma arte colectiva. Felizmente, temos essa possibilidade de trocar experiência e aprender com os outros. É preciso juntar-se a pessoas que já trabalham no cinema. Hoje já não é tão caro produzir, os meios são mais viáveis”, afirmou.
“É preciso perder um pouco de tempo investigando, aprendendo o máximo que se pode, trocando experiência e continuar a bater à porta com o seu projecto”, referiu.
O FilmLab Moçambique decorre até 5 de Setembro na Universidade Pedagógica e no Centro Cultural Franco-Moçambicano, sob coordenação da realizadora cabo-verdiana Samira Vera-Cruz. O programa integra a iniciativa da Rede de Cinema e Audiovisual PALOP+TL, promovida pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema em Moçambique (AAMCM), com apoio do Camões, I.P., através do programa PROCERIS.
O programa inclui ainda sessões abertas ao público sobre Conservação e Ambiente (31 de agosto), Género e Representação (1 de setembro) e Cinema de Impacto (2 de setembro), no Centro Cultural Franco-Moçambicano e online via Zoom.
