A taxa de suicídio em Moçambique tem vindo a registar um aumento preocupante, tornando o país com uma das taxas mais elevadas de Africa. Os dados apontam para 17,3 mortes por cada 100 mil habitantes. Numa acção visando reverter este cenário, Mércia Naftal, 22 anos, estudante da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), está a desenvolver uma plataforma digital inovadora para prestar assistência a pessoas com ideação suicida. A plataforma conta com o apoio de psicólogos que prestam assistência através de mensagens, a todo aquele que solicita ajuda, estando em situação de grave crise de saúde pública.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), indicam que Moçambique apresenta a taxa mais alta do continente africano, significativamente acima da média mundial, que é de 10,6 suicídios por cada 100 mil habitantes.
É perante estes índices alarmantes que Mércia Naftal, finalista do curso de Marketing e Relações-Públicas na UEM, decidiu criar uma plataforma digital de assistência psicológica. O projecto, que venceu o concurso Hackathon 100% Feminino, promovido pela Associação Moçambicana de Jovens pela Igualdade de Género e Educação, consiste na prestação de assistência por psicólogos, através de mensagens escritas.
A estudante refere que muitas pessoas em sofrimento recorrem a plataformas de inteligência artificial para desabafar, assinalando que, embora aquela tecnologia ofereça uma resposta imediata, é notável a falta de empatia e capacidade para lidar com traumas reais.
Explicou que a sua plataforma faz o inverso: utiliza a tecnologia para pôr as pessoas em contacto real com psicólogos qualificados. A plataforma está com um nível de execução de 90%, foi testada em Dezembro do ano passado e espera-se que o seu lançamento oficial seja no final do primeiro trimestre do presente ano.
A plataforma está alojada num website, devendo o utente aceder a página e apresentar o seu pedido de apoio por escrito.
O psicólogo em exercício será notificado para iniciar o diálogo e prestar o devido apoio. O atendimento é efectuado com recurso a mensagem escrita, como mecanismo de garantir privacidade aos pacientes que em situação de género tudo fazem para ocultar a sua imagem.
Apesar de estar a 90% de execução ainda há aspectos que devem ser aprimorado, como o tempo de resposta, a possibilidade de diálogo para quem não saiba escrever, mas procura por ajuda.
O Ministério da Saúde (MISAU) considera a iniciativa da estudante uma mais-valia, sobretudo porque os jovens estão familiarizados com a tecnologia.
O MISAU anunciou que acaba de aprovar um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, um documento multissectorial que envolve os ministérios da Justiça, do Interior, da Agricultura e da Educação, bem como a área militar, estando o plano na fase de afinação antes da sua operacionalização.
Inhambane em destaque
A Província de Inhambane destaca-se nas estatísticas nacionais. Dados oficiais indicam que, na última década, 840 pessoas cometeram suicídio, sendo cerca de cem mortes em 2024 e nove casos registados nos primeiros seis meses de 2025, sobretudo nos distritos de Massinga, Funhalouro e Govuro, com uma média anual de cerca de 80 mortes.
Em Manica, o suicídio é a segunda causa de morte, apenas atrás dos acidentes de viação, com 67 mortes e 349 tentativas em 2024, e 77 mortes e 259 tentativas até meados de 2025. No Hospital Central de Nampula, foram registadas 79 tentativas de suicídio no primeiro semestre de 2024, mais 16 do que no mesmo período do ano anterior.
Na cidade de Maputo, os dados de 2025 indicam 594 tentativas de suicídio notificadas nas unidades sanitárias, das quais 200 em indivíduos do sexo masculino e 394 do feminino. O Ministério da Saúde admite, porém, que existem casos subnotificados que não chegam às unidades sanitárias.
Mais suicídios em homens
Em declarações ao SAVANA, Amálio Comé, psicólogo do Hospital Central de Maputo (HCM), explicou que as mulheres fazem mais tentativas de suicídio, enquanto que os homens concretizam mais suicídios.
O psicólogo rejeita a ideia de que as mulheres não teriam realmente intenção de se suicidar. A diferença, segundo ele, reside nos métodos utilizados. “As mulheres tendem a intoxicar-se com medicamentos ou produtos químicos, como o ratex, métodos que não provocam a morte de imediato e que permitem uma intervenção médica. Enquanto isso, os homens escolhem métodos mais violentos, como o enforcamento, que reduzem as possibilidades de resgate”, esclareceu.
Esta tendência é confirmada pelas estatísticas nacionais, que indicam que os enforcamentos representam 71,1% dos casos, enquanto os envenenamentos atingem 45,1%, incluindo pesticidas e fármacos. Comé chamou ainda a atenção para o facto de que uma pessoa que tenha feito uma tentativa de suicídio apresenta um risco elevado de voltar a tentar ou de consumar a morte, caso não receba acompanhamento nem disponha de um sistema de apoio familiar.
A faixa etária dos 15 aos 29 anos apresenta o maior risco. Segundo Comé, o suicídio é uma das principais causas de morte neste grupo. O psicólogo atribui esta vulnerabilidade às características da adolescência e da juventude, períodos marcados por mudanças físicas e sociais, pelo início de relacionamentos, por descobertas e pela busca de autonomia, quando a personalidade ainda não está consolidada.
Nesta faixa etária, o profissional de saúde mental identificou vários factores de risco, tais como a dificuldade de lidar com o término de relacionamentos, o bullying nas escolas e os diagnósticos de doenças, destacando-se a elevada prevalência do vírus da imunodeficiência humana (VIH) na adolescência. Combinado com o receio de não encontrar apoio na família, este contexto coloca muitos jovens em situação de vulnerabilidade.
Dados do Serviço de Medicina Legal do Hospital Central de Maputo, referentes ao primeiro semestre de 2023, confirmam esta tendência: o grupo etário dos 21 aos 30 anos liderou com 16 casos, seguido dos grupos dos 11 aos 20 anos e dos 31 aos 40 anos, com nove casos cada.
Jogos de fortuna ou azar
Os jogos de fortuna ou azar surgem como um factor de risco significativo. Comé salientou que as pessoas que jogam com frequência podem tornar-se dependentes. Ao acreditarem que vão ganhar, contraem dívidas e desviam dinheiro. Quando se sentem encurraladas, sem conseguirem recuperar o montante investido, podem desenvolver uma depressão que as leva a pensar no suicídio.
O problema afecta também as Forças de Defesa e Segurança. Em Junho de 2023, 17 agentes haviam cometido suicídio em consequência de jogos de fortuna ou azar.
Comé afirma que a maioria das pessoas que cometem suicídio sofre de perturbações mentais, sendo a depressão e a ansiedade as mais prevalentes. No seu entender, a pessoa não consegue suportar a dor que sente e, acreditando não dispor de recursos para a enfrentar, vê na morte a única solução. (Cleto Duarte)
