Depois de se enfiar cuidadosamente numa gruta húmida e fresca, Raúl da Silva Armando Chomela espera que os seus olhos se habituem. Vestindo luvas de látex, um capacete equipado com uma lanterna frontal e uma máscara para proteger os pulmões de partículas finas e bactérias, o biólogo molecular originário da cidade portuária da Beira observa os recantos sombrios à procura de sinais de morcegos.
Já passam dois anos desde que se iniciou nestes espaços claustrofóbicos a estudar estes mamíferos voadores e os seus excrementos. “O guano é muito mais do que apenas fezes de morcego”, diz ele. “Se tivesse de o descrever numa palavra, diria ‘ecossistema’.”
Desenvolvido ao longo do tempo a partir de fezes de aves e morcegos, o guano é um material orgânico rico e potente que alberga escaravelhos, rãs e salamandras que vivem em grutas.
As grutas são pequenos mundos próprios. Tudo cheira, parece e sente-se diferente, com organismos e microbiomas que evoluíram para existir em condições muito específicas, sem luz solar.
Esta é apenas uma das mais de 30 grutas que se podem encontrar na Gorongosa e seus arredores, um extenso parque nacional de 4 000 km², localizado no centro de Moçambique, uma das regiões mais ricas em biodiversidade em África.
O trabalho que Chomela faz não é para os fracos. Ele espreme-se regularmente em espaços pequenos e escuros ou desce por uma escada ou corda para um ambiente desconhecido, com habitantes estranhos. Ficar preso nestas entranhas é sempre uma possibilidade.
Estas redes subterrâneas de cavidades cobrem 183 km², segundo o departamento de ciência do parque. Embora não existam dados sobre quantas das mais de 100 espécies de morcegos que se encontram na Gorongosa vivem aqui, o Tombo Aphale 5 – uma das grutas mais estudadas, com uma escavação arqueológica activa – alberga mais de dez mil morcegos, diz Chomela.
Guerra civil
O Parque Nacional da Gorongosa (PNG) foi fundado em 1960, mas foi abandonado depois da independência, em 1975, e dois anos depois tornou-se um campo de batalha na sangrenta guerra civil entre o governo e a Renamo, esta cujos guerrilheiros encontraram refúgio e combustível nos arbustos, caçando e consumindo tudo o que conseguiam apanhar: elefantes, búfalos, inhacosos, hipopótamos, e até ratos. Quando a guerra terminou, 16 anos depois, 95% da fauna bravia tinha sido dizimada – incluindo quase todos os 5 500 hipopótamos da região – e muitos temiam que o reino animal nunca mais voltaria a ser totalmente recuperado.
O imenso trauma infligido às populações locais, sobreviventes de uma guerra prolongada, vítimas de recrutamento forçado e violação de direitos humanos de ambos os lados, permanece perceptível no seio das actuais gerações.
Contra tais probabilidades, décadas de cuidadosos esforços ambientais – muitas vezes liderados por organizações internacionais, mas que envolvem cada vez mais investigadores e comunidades moçambicanas – resultaram numa das histórias de maior sucesso da conservação em África.
Entre eles está o Projecto Paleo-Primata (PPP), uma parceria lançada em 2018 entre a Universidade de Oxford e o PNG, liderada por Susana Carvalho, primatóloga e paleoantropóloga.
O projecto reúne investigadores e estudantes internacionais e locais de arqueologia, ecologia e geologia. “O Projecto de Restauração da Gorongosa é o maior empregador da região, e um factor importante para a estabilidade económica”, afirma Carvalho.
Chomela iniciou a sua carreira na Gorongosa como investigador de laboratório de biodiversidade em 2022, antes de se juntar ao PPP em 2025. Os seus interesses vão desde a utilização do ADN ambiental para a reconstrução da história ancestral do parque até ao metabarcoding – uma técnica molecular de ponta que ajuda a determinar a composição das espécies de amostras de ADN de primatas e morcegos. Doutorando do primeiro ano na Universidade do Porto, em Portugal, a sua investigação está ligada ao Laboratório EO Wilson em Chitengo, no coração da Gorongosa, onde dirige o laboratório de genética.
De 28 anos de idade, Chomela está na linha da frente de vários campos de investigação altamente especializados, relacionados com o impacto das actividades económicas e do colapso climático no ecossistema da Gorongosa, incluindo o papel dos morcegos.
“Sabemos que os morcegos se alimentam de insectos – incluindo mosquitos que são vectores da malária – e pragas, o que protege as culturas”, diz Chomela. “É por isso que nos focamos em compreender exactamente o que constitui a dieta dos morcegos e a taxa a que o guano é produzido.”
Muitas pessoas locais – especialmente jovens – conhecem estas grutas como a palma da mão, tendo crescido a brincar nelas antes de passarem a colher guano para ganhar a vida. João Lourenço Daoce, de 29 anos, tornou-se o líder comunitário de Inhaminga, uma vila próxima das grutas, após a morte do pai no ano passado, e serve como guia de grutas para membros do PPP. “Ele conhece a forma mais fácil e segura de chegar à maioria das cavernas”, diz Chomela.
Os dois homens forjaram uma forte relação, e Daoce começa a partilhar com os vizinhos a sua nova perspectiva sobre os morcegos e os benefícios que eles trazem para os agricultores.
Os índices das Nações Unidas sobre o desenvolvimento humano consideram Moçambique como um dos países mais pobres do mundo, apesar das suas riquezas em diamantes, rubis, grafite, gás e outros recursos naturais. A colheita de guano é uma das poucas formas mais fiáveis de ganhar dinheiro nas comunidades rurais.
Chomela estima que em média os colectores conseguem obter 200 meticais por cada 50kg de guano vendido como fertilizante agrícola, principalmente para sorgo, feijão e milho. O guano é rico em azoto, fósforo e potássio.
“As populações locais sabem que o guano é um fertilizante muito bom, e usam-no nas suas machambas”, diz Chomela.
Mas sem um sistema regrado de colecta, o guano pode rapidamente se esgotar, prejudicando a biodiversidade das grutas e os rendimentos da comunidade.
“Quando eles vêm o guano, estão a ver dinheiro. Mas o guano é o que garante condições ambientais estáveis nas grutas, desde os 100% de humidade ou os 50ºC de temperatura que alguns morcegos precisam para sobreviver”, diz Chomela. “A exploração excessiva pode comprometer a composição de uma caverna, tornando-a estéril. Depois, os colectores passam para a próxima caverna.
“Precisamos de uma base científica para convencer a comunidade, e a sociedade em geral, do método mais sustentável de colher guano usando técnicas menos prejudiciais, sem perturbar demasiado os morcegos”, diz ele.
Para a metabarcodificação, Chomela apanha e marca cada morcego antes de o colocar num saco estéril até libertar fezes. Estas amostras fornecem uma grande quantidade de informação útil: o que o morcego consome, o rácio por sexo e a presença de parasitas e agentes patogénicos.
Ele espera que os resultados deste estudo de ADN do guano de morcegos, sobre o qual trabalha com outros dois investigadores, ajudem as populações circunvizinhas a se tornarem elas próprias protectoras dos morcegos. “Por exemplo, se conseguirmos demonstrar que os morcegos se alimentam de pragas que incomodam as culturas dos agricultores, estes se tornarão mais amigos dos morcegos”, diz.
Embora os humanos tenham sempre vivido com os morcegos, a compreensão sobre o seu papel no ecossistema é limitada. As crenças tradicionais muitas vezes consideram-nos maus presságios ou responsabilizam-nos erradamente por doenças. “Há os que acreditam que se morcegos vierem à sua casa, alguém vai morrer”, diz Chomela. “É importante mostrar que tal não é o caso”.
Ao apresentar à comunidade provas cientificamente fundamentadas, ele espera convencer a população local – os guardiões destas grutas – da importância da coexistência. (Kang Chun Cheng, Guardian, Londres. Título da responsabilidade do SAVANA)