Jovens moçambicanos exigem que as vítimas da violência que marcou a crise pós-eleitoral de 2024 sejam reconhecidas, que os responsáveis por violações de direitos humanos sejam responsabilizados e que as famílias afectadas recebam reparações, como condição para uma reconciliação nacional efectiva.
A posição foi defendida esta terça-feira, em Maputo, pelo director do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), Adriano Nuvunga, durante a Cimeira Nacional da Juventude sobre Justiça, Reconciliação e Reforma Democrática em Moçambique. A iniciativa foi promovida pelo CDD.
Segundo Nuvunga, muitos jovens continuam a carregar marcas físicas e psicológicas dos acontecimentos registados durante as manifestações pós-eleitorais, razão pela qual o país deve encarar de frente o debate sobre justiça transicional.
“Os jovens estão a dizer que levaram porrada no tempo das manifestações. Levaram com gás lacrimogéneo, mas só estavam a sair para manifestar, para dar a sua opinião para o crescimento democrático do nosso país”, declarou.
Para o director do CDD, a reconciliação nacional passa pelo reconhecimento formal das vítimas e pela preservação da memória dos que perderam a vida durante o período de contestação eleitoral.
“O que significa a verdade e memória para os jovens? É dizer que aqueles jovens que tombaram sejam reconhecidos. Que aquele jovem que foi ferido seja reconhecido. E que a memória daqueles que tombaram seja preservada”, afirmou.
Nuvunga revelou que, durante os preparativos da cimeira, foram recolhidos testemunhos de jovens feridos nos protestos, incluindo um jovem de 22 anos que ficou permanentemente incapacitado após ser atingido por um estilhaço.
“Ele disse que o que lhe confortaria seria saber que o processo dentro do qual ficou assim o reconhece como vítima desse processo”, contou.
Além do reconhecimento das vítimas, o director do CDD defendeu mecanismos de responsabilização e reparação para as famílias afectadas pela violência.
“Temos que encontrar formas de nos organizarmos para que não somente reconheçamos a memória, não somente falemos a verdade, não somente responsabilizemos e façamos justiça, mas também a questão das reparações para aquelas vítimas mais directas”, sublinhou Nuvunga.
O director do CDD alertou ainda para o risco de afastamento dos jovens dos processos democráticos caso as suas preocupações não sejam respondidas.
“Corremos o risco de perdermos os jovens. Os jovens não irem votar. Os jovens não irem participar dos processos. Os jovens não enriquecerem a nossa democracia”, advertiu.
Por sua vez, a representante da Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo (COTE), Ivone Soares, defendeu que o diálogo foi a alternativa encontrada pelos moçambicanos para evitar o agravamento da crise política.
“Qual era a alternativa ao diálogo? Nós já tivemos vários processos eleitorais. Já tivemos várias convulsões pós-eleitorais. Já tivemos conflitos pós-eleitorais, várias mortes, detenções, destruições e desentendimentos. No fim, acabamos sempre por dialogar para fazer a paz”, afirmou.
Segundo Soares, o actual processo representa uma oportunidade para promover reformas políticas, constitucionais e de governação capazes de reduzir conflitos futuros.
“O diálogo nacional inclusivo foi o corta-mato encontrado para não nos matarmos e para não prolongarmos a confusão que estava a reinar no país”, declarou a representante da COTE.
Na abertura da cimeira, o Ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse, defendeu um maior envolvimento dos jovens nos processos de tomada de decisão e sublinhou que a juventude deve assumir um papel central na construção da paz e da democracia.
“Queremos uma juventude que participe, que proponha, que questione construtivamente e que contribua para a consolidação das instituições democráticas”, afirmou.
O governante considerou igualmente que a justiça, a reconciliação e a reforma democrática só produzirão resultados duradouros se incorporarem as aspirações da maioria jovem da população moçambicana.
A cimeira reúne jovens de diferentes sectores da sociedade para debater propostas ligadas à justiça transicional, reconciliação nacional, participação política e reformas democráticas, cujas recomendações deverão alimentar os debates do Diálogo Nacional Inclusivo.
(Helena Madança)