O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, defendeu que as universidades moçambicanas precisam de recuperar a sua ligação com a sociedade, alertando que o conhecimento produzido nas instituições de ensino superior continua demasiado distante das comunidades e dos problemas concretos do país.
Intervindo esta terça-feira, em Maputo, numa palestra subordinada ao tema “O olhar do Presidente Chissano sobre o papel da UEM na construção do Estado moçambicano independente”, integrada nas celebrações dos 50 anos da atribuição do nome Eduardo Mondlane à Universidade Eduardo Mondlane (1976-2026), Chissano afirmou que a missão da universidade não termina na produção de conhecimento, mas deve traduzir-se em soluções concretas para a população.
“Eu ainda não sinto a universidade, ou as universidades todas elas. Não sinto a presença delas no seio do povo. Fazemos investigação, escrevemos, o Presidente vem aqui e discursa, pensamos que o povo vai utilizar aquilo, mas não é assim. O povo fica ainda um pouco afastado. Eu penso que a universidade deve ser povo”, afirmou.
Segundo Chissano, não basta produzir investigação se esta permanecer confinada às salas de aula ou às bibliotecas.
“Quem sabe está na universidade, na sua sala de investigação, a escrever o seu livro e a meter na gaveta, ou mandar para a biblioteca. Mas quando é que o camponês vai à biblioteca? O nosso povo aprende quando vê e acredita quando a pessoa que faz também está interessada”, disse.
Ao longo da sua intervenção, o antigo Chefe de Estado recordou que a Universidade Eduardo Mondlane desempenhou um papel determinante na construção do Estado moçambicano logo após a independência, formando os quadros que asseguraram o funcionamento das instituições públicas.
“A universidade abriu ao Estado a capacidade do país para governar o seu próprio destino. Mas a sua contribuição não se limitou à formação técnica. Promoveu uma cultura de serviço público, de responsabilidade política e de compromisso com a nação. Mais do que profissionais, procurou formar servidores do interesse público”, afirmou.
Para Chissano, a aposta no ensino superior sempre esteve ligada ao ideal de soberania nacional. “Nenhum povo consolida plenamente a sua liberdade sem produzir conhecimento sobre si próprio. Nenhum Estado afirma duradouramente a sua soberania quando depende exclusivamente das ideias produzidas por outros. A independência política pode proclamar-se; a independência intelectual constrói-se geração após geração”, defendeu.
O antigo Chefe de Estado alertou, contudo, que os desafios colocados ao ensino superior mudaram profundamente desde a independência. “A revolução digital, a inteligência artificial, as mudanças climáticas, as transformações demográficas, as novas pandemias, os novos conflitos internacionais e a globalização da economia mundial colocam às universidades responsabilidades que nenhuma geração anterior conheceu”, afirmou.
Apesar desse novo contexto, sustentou que permanece inalterada a missão essencial das instituições de ensino superior: “formar inteligências livres, espírito crítico, sentido ético e compromisso cívico com a nação”, preparando cidadãos capazes de colocar o conhecimento ao serviço da dignidade humana, da justiça e do desenvolvimento do país.
Questionado sobre o papel das novas gerações na construção do país, Chissano defendeu que o maior desafio dos estudantes é colocar o conhecimento ao serviço das comunidades e assumir um papel activo na resolução dos problemas nacionais, sem esperar que todas as respostas partam do Estado.
“O propósito da universidade não deve ser definido apenas pelos seus dirigentes. Os estudantes vivem num meio onde há necessidades, problemas para resolver e uma população à espera de respostas. É dessa reflexão que deve nascer a universidade”, afirmou. Para o antigo Presidente, as instituições de ensino superior devem aproximar-se das comunidades, ajudando a transformar o conhecimento científico em soluções concretas para o desenvolvimento do país. “Eu penso que a universidade deve ser povo”, concluiu.
(Helena Madança)