Em 1984, assisti ao documentário Comboio da Vida, realizado por Ismael Vuvo e Gabriel Mondlane, amigos e colegas da cinematografia. Rodado ao longo de três semanas, quase não chegou ao fim. As equipas do INC capturaram imagens reais e cruas dos comboios que cruzavam o centro do país, passando por Inhaminga sob escolta militar.
Aquelas carruagens eram apelidadas de “comboios da vida” ou “da sobrevivência”. Transportavam civis, deslocados e bens essenciais através de territórios sob constante ameaça de ataques e sabotagens. A guerra dos dezasseis anos havia destruído a linha férrea, e a própria vila de Inhaminga tornara-se uma sombra de si mesma.
Antes da Independência, Inhaminga era uma importante vila ferroviária ao longo da Linha de Sena. Era considerada o segundo maior centro urbano de Sofala, logo depois da cidade da Beira. Ao longo de décadas, diferentes guerras marcaram a região, e a vila ainda carrega, nos seus edifícios, as cicatrizes dessa destruição.
O próprio nome Inhaminga tem raízes na língua Sena e estará ligado à expressão wa enda minga, associada às plantas espinhosas da região. Talvez Inhaminga seja um desses lugares onde várias guerras, gerações e memórias acabam sempre por se encontrar.
Regresso a Inhaminga neste Setembro, mês em que Moçambique recorda a Vitória e o início da Luta Armada de Libertação Nacional, porque existem memórias que não podem continuar confinadas aos livros ou às conversas dos sobreviventes. A memória nacional não pode guardar apenas as páginas luminosas da resistência e da vitória, deixando na penumbra as mortes e as torturas, as deslocações forçadas de milhares de cidadãos, as valas comuns e os silêncios que também fizeram a história da libertação e da independência deste país.
É neste espírito que volto a um livro que recebi em 2017, durante um seminário dedicado a José Capela, na Universidade do Porto, Inhaminga: O Último Massacre, de Jorge Ribeiro, publicado pela Afrontamento em 2015. O livro investiga os acontecimentos ocorridos em Inhaminga e arredores entre 1973 e 1974 e a violência colonial que, durante décadas, permaneceu longe da consciência pública portuguesa. Parece ser um daqueles livros que têm o seu próprio calendário. Teve um impacto avassalador em mim.
Depois da leitura, ficaram perguntas à espera de serem formuladas. A pergunta chegou agora. O que aconteceu realmente em Inhaminga? Quantas pessoas morreram? Quem ordenou, executou, viu, denunciou ou preferiu calar? Como se articularam as estruturas militares, a PIDE/DGS e os grupos civis armados? Onde estão as valas comuns? O que sabiam os missionários e o que disseram às autoridades? Por que razão, passados mais de cinquenta anos, continuamos a falar tão pouco de tudo isto? Estas perguntas pertencem ao presente.
Seria um erro começar a história de Inhaminga pelas valas comuns. Uma tragédia desta dimensão não nasceu num único dia. Antes da violência extrema, vieram formas menos visíveis de coerção, expropriação desumana, trabalho coercivo levado às últimas consequências, vigilância, deslocação das populações, concentração em aldeamentos e suspeição generalizada sobre os camponeses.
José Capela, em O Vinho para o Preto, ensinou-nos que realidades aparentemente banais podem revelar estruturas profundas de dominação. A violência colonial não estava apenas nos soldados e nos polícias. Estava também na terra, no trabalho, no comércio e na administração. Tinha muitas faces, umas usavam farda; outras, carimbo.
Inhaminga deve ser lida dentro dessa lógica de longa duração. Quando a guerra de libertação se intensificou em Manica e Sofala e as estruturas coloniais sentiram ameaçado o controlo do território, a fronteira entre administração e repressão tornou-se cada vez mais ténue. A ferrovia entre a Beira e Tete era estratégica e, à medida que aumentavam os ataques, a população africana passou, muitas vezes, a ser encarada não como população a proteger, mas como população a vigiar.
Inhaminga ocupava uma posição estratégica na Linha de Sena, por onde circulavam materiais e abastecimentos essenciais entre a Beira e Tete. Essa importância ferroviária ajuda a compreender por que razão o controlo daquele território se tornou tão sensível durante a guerra. É neste contexto que os aldeamentos ganham importância estratégica. A concentração das populações procurava cortar relações entre pessoas, terra, redes familiares, caminhos tradicionais e guerrilha.
A Luta Armada de Libertação Nacional chegou de forma intensa à região de Inhaminga em 1973, como consequência directa da abertura da Frente de Manica e Sofala pela FRELIMO, em 25 de Julho de 1972. As acções guerrilheiras tornaram-se frequentes, incluindo ataques a alvos estratégicos, como as linhas ferroviárias da Trans-Zambezia Railway (TZR).
A repressão na vila
Para tentar travar o avanço e o apoio popular à FRELIMO, as forças coloniais portuguesas e a PIDE intensificaram a repressão na vila entre 1973 e 1974. Essa violência culminou no trágico Massacre de Inhaminga, ocorrido entre Agosto de 1973 e Março de 1974, resultando no assassinato de mais de três mil civis moçambicanos.
Deslocar uma comunidade significava desarticular uma forma de vida. Primeiro deslocava-se. Depois controlava-se. Quando o controlo não bastava, punia-se. Não se deve estabelecer uma relação mecânica entre aldeamentos e massacres, mas é impossível compreender Inhaminga sem compreender esta lógica de guerra e repressão.
A população de Inhaminga passou a ser tratada como principal suspeita perante os fracassos e os ataques constantes. A documentação e os testemunhos descrevem uma engrenagem em que se cruzavam forças militares, PIDE/DGS e organizações civis armadas. Não se tratava apenas de uma tropa que chegava, disparava e partia.
Havia denúncias, detenções, interrogatórios, torturas, vigilância e execuções. O inimigo deixava de ser apenas o guerrilheiro armado. A suspeita podia recair sobre camponeses, chefes comunitários, trabalhadores e famílias apontadas como colaboradoras da FRELIMO. A guerra tornava-se uma guerra contra a possibilidade de colaboração. Quando toda uma comunidade podia ser transformada em suspeita, a violência deixava de ser excepcional. Tornava-se método.
Entre os que decidiram escrever e denunciar estavam os missionários. E esta é, para mim, uma das dimensões mais extraordinárias da história de Inhaminga. A narrativa dos massacres poderia ser descartada como memória política posterior. Mas isso torna-se difícil quando percebemos que, enquanto os acontecimentos decorriam, havia homens a registá-los.
O Arquivo Histórico Militar português conserva um Relatório dos Missionários de Inhaminga, com 39 folhas dactilografadas, produzido entre 1971 e Abril de 1974 e contendo documentação sobre massacres em Inhaminga e noutros locais. Entre os missionários ligados a esse testemunho estava o padre holandês José Martens.
Em Maio de 1974, os missionários da Missão de Inhaminga produziram um memorando sobre actos de terror, prisões, torturas e massacres ocorridos entre Agosto de 1973 e Março de 1974. Baseava-se num diário escrito à medida que os acontecimentos ocorriam. Os autores afirmavam poder identificar com precisão locais de valas comuns. Para proteger os africanos mencionados, substituíram os seus nomes, conservando os verdadeiros num arquivo confidencial da Congregação dos Sagrados Corações, nos Países Baixos.
Enquanto o poder colonial procurava controlar corpos, movimentos e territórios, aqueles missionários procuravam preservar nomes. O documento foi assinado por cinco religiosos holandeses da Congregação dos Sagrados Corações. Entre eles, José Martens tornar-se-ia a figura mais conhecida, não apenas porque testemunhou, mas porque decidiu falar.
O testemunho de Martens ganha força precisamente por não ser uma narrativa construída muitos anos depois. É uma voz que emerge de dentro do acontecimento. O relatório nasceu da urgência de registar detenções, torturas e mortes enquanto o poder colonial ainda existia. Os seus autores sabiam que escrever era perigoso, mas também que o silêncio poderia permitir, mais tarde, negar os acontecimentos.
Uma das preocupações expressas no memorando é quase premonitória. Os missionários fizeram questão de afirmar a existência de Inhaminga e receavam que o massacre viesse a ser negado, como já acontecera com Wiriyamu. Não bastava dizer que pessoas tinham morrido. Era preciso impedir que se dissesse que aquele lugar nunca existira.
“Por que razão esconderam Inhaminga?
Inhaminga não foi uma descoberta historiográfica tardia. O relatório dos missionários foi publicado já em 1974 pelo Movimento Justiça e Paz e, no mesmo ano, circulou internacionalmente como Diary of Inhaminga. A Revista Tempo retomou os massacres em 1976. Décadas depois, vieram o livro de Jorge Ribeiro, em 2015, e a obra publicada pelo ARPAC, em 2019.
Foi o livro de Jorge Ribeiro que me devolveu à pergunta essencial. Por que razão Inhaminga, apesar de tudo isto, não ganhou o devido espaço na memória nacional? A pergunta, portanto, não pode ser apenas “Por que razão esconderam Inhaminga?” A pergunta mais difícil é outra. Se Inhaminga foi denunciada, publicada e posteriormente estudada, por que razão permaneceu tão pouco presente na memória colectiva nacional? Não sei bem onde começa a responsabilidade de cada um. Wiriyamu tornou-se uma referência internacional dos massacres coloniais portugueses. Inhaminga, apesar da documentação existente, permaneceu muito menos presente no imaginário colectivo. Talvez porque a memória também tenha as suas geografias.
Alguns acontecimentos encontram jornalistas, diplomatas e fotografias. Outros ficam dependentes da memória oral de uma comunidade e de alguém que ainda consiga contar a história décadas depois. Não se trata de estabelecer uma competição entre massacres. Não há hierarquia possível entre mortos. Trata-se de perguntar como uma tragédia entra na consciência de uma sociedade. Inhaminga não precisa de disputar espaço com Wiriyamu. Precisa de recuperar o seu próprio lugar.
É aqui que devemos ser cuidadosos. As estimativas variam. A Comissão de Inquérito das Nações Unidas registou mais de três mil mortos; outras fontes apontam para números superiores e há relatos de pessoas enterradas vivas. Não devemos escolher o número que mais impressiona, mas o rigor. O que sabemos é suficientemente grave. Houve prisões, tortura, execuções, corpos enterrados em valas comuns, testemunhas, denúncias e autoridades informadas. Isso basta para exigir investigação.
O massacre ocorreu quando o colonialismo português estava politicamente fragilizado, militarmente pressionado e internacionalmente contestado. Mas, a proximidade do fim não significou moderação. Pode ter produzido uma violência mais desesperada. Seria, no entanto, errado explicar tudo pela “agonia do regime”. A violência colonial tinha raízes profundas. O que se alterou foi a escala da guerra e a percepção do risco.
A luta de libertação chegara a zonas estratégicas, a administração procurava recuperar o controlo e a população era submetida a deslocações, vigilância e suspeição. Nessa zona de sombra, a distinção entre combater a guerrilha e punir as populações tornou-se perigosamente indistinta. Foi aí que Inhaminga se tornou possível. Em 25 de Abril de 1974, caiu a ditadura portuguesa. Poucos dias depois, chegavam a Lisboa notícias dos massacres de Inhaminga. O simbolismo era quase insuportável.
Enquanto Portugal celebrava a sua libertação, chegavam notícias de pessoas mortas, em África, por um sistema colonial que chegava ao fim. A censura caiu. Mas a queda da censura não produz automaticamente memória. Uma sociedade pode passar da censura ao esquecimento sem atravessar verdadeiramente o território da memória.
Depois da Independência, Inhaminga seria novamente atravessada pela guerra de desestabilização. Eram guerras diferentes, com actores e contextos distintos, mas recaíram sobre a mesma terra e, em grande medida, sobre as mesmas comunidades. É neste ponto que Inhaminga se torna também uma história sobre a transmissão inter-geracional da violência. E talvez, por isso, seja tão simbólico que o actual Presidente da República tenha nascido ali, em 1977, e que a sua família tenha posteriormente abandonado a localidade devido ao conflito armado. Não é preciso transformar esta coincidência numa tese política. Basta deixá-la falar. Uma criança nasce num lugar que ainda guarda os mortos de uma guerra. Poucos anos depois, a família abandona-o por causa de outra. Décadas mais tarde, essa criança torna-se Presidente da República.
Não podemos construir uma memória nacional apenas com os nossos heróis. Precisamos também de pensar nos nossos mortos. As vitórias tiveram um preço. Por isso, não basta recordar as decisões tomadas nas capitais. Precisamos de ouvir as aldeias e recuperar aqueles cujos nomes desapareceram dos registos oficiais.
Como diz um antigo ensinamento africano, “até que os leões tenham os seus próprios historiadores, as histórias da caça continuarão a glorificar o caçador”. Durante muito tempo, a história colonial foi escrita pelos que tinham poder para a escrever. Depois da Independência, começámos a escrever a nossa. Mas escrever a história nacional não significa apenas substituir uma narrativa por outra. Significa tornar visíveis aqueles que ficaram de fora de ambas.
É possível que nunca consigamos reconstruir tudo. Mas isso não pode ser razão para deixarmos de procurar. Onde estão as valas? Quem eram os mortos? Que nomes, documentos e testemunhos ainda podem ser recuperados? Algumas respostas estão nos arquivos. Outras estão nas comunidades. E muitas exigirão que os dois se encontrem. Não começamos do zero. Há documentação nos arquivos portugueses, testemunhos recolhidos pela ONU, imprensa da época e investigação moçambicana posterior. Teremos de ter vontade de juntar os pedaços. Há quem pense que revisitar estas histórias significa reabrir feridas. Às vezes, revisitar uma ferida é a condição para que ela deixe de infeccionar. Um país não se torna mais dividido por conhecer melhor a sua História. Torna-se mais maduro. A reconciliação não pode ser construída sobre o silêncio nem confundida com amnésia.
Recordar os crimes do colonialismo não significa transformar todos os portugueses em criminosos, assim como recordar os massacres não significa transformar os moçambicanos apenas em vítimas. As vítimas resistiram, as comunidades sobreviveram, os missionários testemunharam, os nacionalistas lutaram e o país nasceu. Mas nascer como nação não nos dispensa de perguntar o que aconteceu aos que morreram antes e durante as guerras que atravessaram Inhaminga.
Temos de conseguir dizer uma coisa aparentemente simples, que conquistámos a Independência e ainda precisamos de conhecer melhor o preço dessa conquista. Inhaminga precisa de voltar a ser pronunciada. José Capela ensinava-nos a procurar, nas coisas aparentemente pequenas, as estruturas profundas de uma sociedade. Um copo de vinho podia revelar uma economia colonial; um aldeamento, uma estratégia militar; uma lista de nomes, uma política de repressão. E uma pequena missão no centro de Sofala pode revelar uma parte inteira da história colonial portuguesa.
Inhaminga não é apenas uma localidade. É uma pergunta sobre a violência, o colonialismo, a resistência e a memória. A História não se fecha porque deixamos de falar dela. Os mortos continuam ali. As famílias carregam os seus nomes. As terras guardam os lugares. Os arquivos conservam papéis. E os poucos que ainda podem testemunhar continuam a envelhecer.
Este não é apenas um convite à memória. É um convite à investigação. Temos de voltar aos arquivos, ouvir as comunidades, recuperar nomes e, quando for possível, localizar as sepulturas. Setembro é um bom mês para fazê-lo. Celebrar a Vitória não deve significar apenas olhar para a bandeira que foi hasteada, mas também para aqueles que não chegaram a vê-la.
Os mortos de Inhaminga não precisam que inventemos a sua história. Precisam que voltemos a procurá-la. Talvez essa seja a forma mais digna de lhes devolver um lugar na História. (Jorge Ferrão)