Por: Luís Guevane
Venâncio Mondlane está a ser o rosto da Revolução Azul. Esperamos que nesse pacote conste a tão solicitada votação electrónica. É uma revolução necessária que só tardou porque ainda sobrava uma réstia de confiabilidade no “sistema”. Uma réstia que, no fundo, só sobreviveu devido à “educação política” absorvida ao longo de décadas. Uma politização coerciva das mentes. Ou seja, o “sistema” encarregou-se de pregar uma pseudoverdade maquilhada com “nacionalismos” e direcionamento da culpabilização crescente dos males nacionais ao Ocidente. Uma espécie de extensão política da extemporaneidade da esquecida “guerra fria”. Em paralelo, o tempo empenhou-se em denunciar o “desvio revolucionário” feito por esse “educador” fundado pela vibração de “setenta e cinco”. Dominado o povo, logo, o “sistema” auto rotulou-se infalível e imbatível diante do preceito que sabiamente diz que o poder corrompe. Para suavizar, podemos dizer que o peso das dinâmicas políticas externas mais o capitalismo ou o dito neoliberalismo constituíram a “mão externa” que corrompeu totalmente o “sistema”, criando como autodefesa a autocracia mascarada no pluripartidarismo. Assim, formalizou-se o Estado de Direito para a garantia de um lugar no concerto das nações civilizadas, mas, no fundo, procurava-se a auto-reprodução do “sistema” com base na manutenção da partidarização do Estado. Tendo a máquina governativa e os órgãos de gestão eleitoral sido minados politicamente nada mais perturbaria a segurança no perpetuamento do “sistema”. Isto é ou tem sido válido desde as primeiras eleições pluripartidárias. O Povo que se lixe!
A votação electrónica pode interessar ao povo e não propriamente ao “sistema”. Os “desenvolvedores” do “sistema” sabem que a votação electrónica não surgiu por capricho. É ou pode ser presencial e depende inteiramente do votante. “Inteiramente”, entenda-se, sem intromissão de espécie alguma. Vota só quem estiver registado ou cadastrado. A duplicação de votos é posta de lado. Mesmo assim, o sistema de votação deve ser submetido à fiscalização. Sairíamos, então, da votação tradicional para a votação baseada em tecnologias modernas condizentes com os tempos em que vivemos. Dinheiro! De onde viria o dinheiro? De onde viriam as máquinas? A teoria da conspiração seria accionada para acreditarmos que, vindo o dinheiro e as máquinas do Ocidente, o “sistema” entraria em colapso. No entanto, vindo de paragens “ex-comunistas” ou ainda “comunistas” o “sistema” haveria de prevalecer e auto perpetuar-se. Complicado! Hibridizando a proveniência dos dinheiros e das máquinas, o que teríamos? Seja como for, é preciso contrariar a actual rubra situação de desconfiança. A ética eleitoral, a moral, o bom senso, a percepção de Estado de Direito, a honestidade, foram corrompidas pelo vírus da “insubstituibilidade” conjugado com o do “rabo preso”. Resgatando esses valores deixaríamos de pensar na votação electrónica e confiaríamos na CNE e no STAE. Agora não! A corrupção político-democrática é conhecida pelo eleitorado. Estamos a educar o eleitorado, todo ele, a valorizar práticas corruptas, confirmando que o poder se arranca, que o camarão que dorme a onda leva. Esses madalas não crescem, não são sérios! É o que mais se ouve. A ponte para a democracia ainda não existe. Será que primeiro vamos ter que inventar um rio cheio de lágrimas e sangue produzidos pelo repúdio do eleitorado ao desrespeito pela sua vontade eleitoral para depois termos a referida ponte? O rio não dá mostras de parar de crescer. Haverá engenheiros políticos e religiosos suficientes para essa grande empreitada? Enquanto se discute se o partido no poder foi tomado pela crise, se se deve respeitar a verdade eleitoral, ou se a votação electrónica é a melhor solução, enquanto tudo isso acontece, a Revolução Azul vai sendo teorizada a partir de práticas sociais fundadas nas marchas e/ou manifestações, alicerçadas numa vontade colectiva de mudança. Hoje percebe-se que o azul tanto pode ser a imensidão do mar ou do céu. E, um simples laço, pode representar toda essa imensidão.