Nesta sexta-feira, Moçambique despediu-se de Luísa Diogo, consagrando-a definitivamente como um “tesouro nacional”. Num velório solene realizado, nesta sexta-feira, nos Paços do Concelho Municipal de Maputo, o Presidente da República, Daniel Chapo, enalteceu a primeira mulher a chegar a posição de Primeira-Ministra, entre 2004 e 2010, descrevendo a sua partida como uma “ferida na memória colectiva” e um exemplo supremo de serviço público que deve ser estudado e seguido por gerações futuras.
A cerimónia fúnebre contou com a presença de familiares, amigos, antigos estadistas e representantes de várias instituições bancárias, onde a antiga governante trabalhou, para se despedirem de Luísa Dias Diogo, a mulher que durante anos fez parte da liderança do país e que, mesmo fora do poder, nunca deixou de servir com contribuições.
Daniel Chapo não escondeu a dimensão da perda. Logo nas primeiras palavras do seu elogio fúnebre, o chefe de Estado descreveu a morte de Luísa Diogo como uma ferida aberta na consciência nacional e uma ruptura no curso da história moçambicana.
O Presidente salientou que o luto ultrapassou o protocolo oficial e instalou-se no quotidiano do país. Nos mercados, nos transportes públicos e nas redes sociais, os moçambicanos choram a partida daquela que considerou “uma daquelas vidas raras”, uma existência que não se limitou a ser vivida, mas que se transformou em trabalho, competência, dedicação e inspiração para toda uma nação.
“A vida de Luísa Diogo foi História que ainda deve ser estudada e testemunho que deve ser seguido.”
Das machambas de Tete até ao cume do Estado
Chapo fez referência às origens de Luísa Diogo, de modo a ilustrar a força da sua trajectória. Filha de um enfermeiro seria de esperar que tivesse nascido numa maternidade. Contudo, o destino quis que viesse ao mundo numa machamba de arroz, na zona rural de Magoé, longe de qualquer conforto hospitalar. Para o Presidente, este nascimento reveste-se de um carácter simbólico: nasceu numa machamba de arroz, na planície de Nhalutcena.
“Luísa nasceu onde nasce a força e a coragem do povo moçambicano. O alimento, a prosperidade e a economia. Daí quis o destino que fosse economista.”
Chapo recordou que Luísa aprendeu cedo uma lição difícil, mas transformadora, numa sociedade marcada pela desigualdade de género,onde as mulheres necessitam de demonstrar o dobro da capacidade e de investir o dobro do esforço para serem reconhecidas como capazes. O estadista salientou que a ex-Primeira-Ministra não considerou esse fardo uma injustiça, mas sim uma oportunidade de disciplina, um impulso e um caminho para vencer todas as barreiras.
Um dos momentos mais emotivos da cerimónia chegou quando o Presidente citou a própria obra literária de Luísa Diogo, intitulada “A Sopa da Madrugada”. No livro, a antiga governante pede perdão à família pelas ausências prolongadas, pelo cansaço acumulado ao fim de longos dias, pelas férias prometidas e nunca realizadas, pelo vazio que deixou nos momentos em que mais precisavam dela.
Chapo resumiu esse sacrifício à dedicação da nação: “Este é o preço silencioso do serviço público. Quando a pátria a chamasse, ela respondia sempre com entrega total e completa, em sentido de missão”.
O Chefe de Estado destacou ainda a visão humanista que distinguiu a gestão de Luísa Diogo à frente das Finanças e do Governo: “Onde muitos viam números, Luísa Diogo via sempre pessoas. Onde muitos viam contas, via o futuro de Moçambique. Onde muitos viam limitações, via caminhos.”
A família: “Viveu para servir”
Laura Diogo da Silva, filha da falecida antiga Primeira-Ministra, tomou a palavra em nome da família e ofereceu um testemunho que comoveu. A filha recordou que a mãe dedicou a vida inteira ao serviço do povo, da família e de Deus. Como mulher de fé, explicou Laura, Luísa Diogo acreditava numa concepção precisa de liderança: “A liderança não é poder, é responsabilidade. Não é vaidade, é entrega. Não é privilégio, é missão.”
A representante da família revelou que só Deus conhece verdadeiramente a extensão dos sacrifícios da mãe e às renúncias silenciosas, as noites sem descanso, as decisões difíceis tomadas longe dos holofotes. Numa metáfora, que captou a essência de Luísa Diogo, Laura comparou-a à árvore mais emblemática de África: “Como um embondeiro, a mamã cresceu em profundidade antes de crescer em altura. Sustentou muitos à sua sombra, mesmo quando o peso era grande.”
Laura concluiu com uma declaração que deu título a esta homenagem nacional: “A nossa mãe foi e sempre será um tesouro nacional.”
A filha acrescentou que as mensagens vindas de todo o mundo ajudaram a família a compreender que a dor que sentem é partilhada por muitos, muito além das fronteiras de Moçambique.
Harvard: Luísa Diogo foi uma líder forte é integra
A prestigiada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos da América, onde Luísa Diogo era membro do Conselho e assessora do Programa de Liderança Ministerial ao longo dos anos, fez-se representar através de uma mensagem publicada na página oficial da instituição, intitulada” Homenageando a vida e o legado de Madame Luísa Diogo “.
A instituição norte-americana escreveu que Luísa Diogo “foi uma parte fundamental do nosso programa é uma pessoa com quem tivemos a imensa gratidão de trabalhar. Cada interacção com ela deixou uma marca positiva em nós”.
A comunidade académica descreveu-a como uma mulher conhecida pela capacidade de ouvir com atenção e partilhar de conhecimento, movida por integridade.
Luísa Dias Diogo nasceu a 11 de Abril de 1958 em Magoé, província de Tete. Faleceu a 16 de Janeiro de 2026 em Lisboa, aos 67 anos, vítima de doença prolongada. Licenciada em Economia, em 2004, é indicada para ocupar o cargo de Primeira-Ministra na história de Moçambique função que exerceu até Janeiro de 2010. O Governo decretou luto nacional de dois dias. A bandeira que hoje cobre a sua última morada é a mesma que um dia jurou defender.
(Cleto Duarte)