{"id":8035,"date":"2025-02-21T14:12:35","date_gmt":"2025-02-21T12:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/savana.co.mz\/?p=8035"},"modified":"2025-02-21T14:12:40","modified_gmt":"2025-02-21T12:12:40","slug":"a-busca-pela-legitimidade-externa-em-meio-a-rejeicao-popular-interna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/savana.co.mz\/?p=8035","title":{"rendered":"A busca pela legitimidade externa em meio \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o popular interna*"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"\">A investidura de Daniel Chapo como presidente de Mo\u00e7ambique foi marcada por uma evidente aus\u00eancia de chefes de Estado e l\u00edderes internacionais, o que gerou um forte cepticismo sobre a sua legitimidade. No entanto, ao longo do tempo, Chapo tem vindo a conquistar uma legitimidade, ainda que prec\u00e1ria, no plano diplom\u00e1tico e institucional. Este processo inclui a aproxima\u00e7\u00e3o a bancos de desenvolvimento e a coopera\u00e7\u00e3o internacional, que t\u00eam sido fundamentais para garantir a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica do novo regime. Mas, enquanto o apoio externo parece s\u00f3lido, a legitimidade interna, aquela que vem das ruas, continua a ser um grande desafio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Chapo tem tamb\u00e9m conseguido, aos poucos, consolidar uma posi\u00e7\u00e3o nas esferas diplom\u00e1ticas. As suas reuni\u00f5es com delega\u00e7\u00f5es de governos, representantes das Na\u00e7\u00f5es Unidas e altos funcion\u00e1rios de bancos de desenvolvimento revelam uma aceita\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica da sua lideran\u00e7a. Embora todos estes actores estejam cientes da ilegitimidade da sua elei\u00e7\u00e3o, o pragmatismo das rela\u00e7\u00f5es internacionais leva-os a adaptar-se rapidamente \u00e0 nova realidade, desde que os seus interesses n\u00e3o sejam amea\u00e7ados. De facto, muitas dessas entidades, ao longo da hist\u00f3ria, t\u00eam colaborado com regimes que surgiram de processos claramente anti-democr\u00e1ticos, como golpes de Estado, sempre que as suas rela\u00e7\u00f5es comerciais e geopol\u00edticas estavam em jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No entanto, o regime de Chapo enfrenta uma batalha muito mais complexa em solo nacional. A legitimidade popular, que \u00e9 a base de qualquer governo est\u00e1vel, permanece um obst\u00e1culo significativo. Desde a sua investidura, o pa\u00eds tem sido palco de protestos, com manifesta\u00e7\u00f5es a tomar for\u00e7a nas ruas. O movimento de contesta\u00e7\u00e3o, que teve in\u00edcio em Outubro do ano passado sob a lideran\u00e7a de Ven\u00e2ncio Mondlane, continua a ser um ponto de fric\u00e7\u00e3o. Apesar de Mondlane ter ordenado a suspens\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es por um tempo, o fervor popular continuou, como demonstrado pelos incidentes mais recentes. Um dos epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos ocorreu quando um bloqueio de via na cidade de Maputo for\u00e7ou a primeira-ministra a interromper uma miss\u00e3o que se acredita oficial na capital, evidenciando a falta de controle sobre a situa\u00e7\u00e3o. O descontentamento popular n\u00e3o se limita \u00e0 capital; em v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, como em Ch\u00f3kw\u00e8, popula\u00e7\u00f5es t\u00eam boicotado actividades oficiais, recusando-se a colaborar com as autoridades e, em alguns casos, atacando instala\u00e7\u00f5es estatais e s\u00edmbolos do partido Frelimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A fragilidade da legitimidade popular \u00e9, portanto, um factor determinante na crise pol\u00edtica actual. Mesmo que as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e com os parceiros de coopera\u00e7\u00e3o estejam aparentemente asseguradas, o governo de Chapo enfrenta um dilema crucial: como consolidar a aceita\u00e7\u00e3o popular? A hist\u00f3ria recente de Mo\u00e7ambique mostra que, em momentos de crise pol\u00edtica, \u00e9 a confian\u00e7a das massas que garante a sobreviv\u00eancia dos regimes. Os protestos e os sinais de insatisfa\u00e7\u00e3o popular indicam uma desconex\u00e3o profunda entre o governo e a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Para tentar contornar essa lacuna, o regime tem investido na utiliza\u00e7\u00e3o de intelectuais e acad\u00e9micos para melhorar a sua imagem e influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica. No tempo de Armando Guebuza, o governo foi relativamente bem-sucedido nesta estrat\u00e9gia, com um grupo de propagandistas altamente qualificados a defender a sua narrativa nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. No entanto, a administra\u00e7\u00e3o de Filipe Nyusi cometeu um erro estrat\u00e9gico ao recorrer a figuras de pouca relev\u00e2ncia intelectual, o que enfraqueceu a sua capacidade de convencer a sociedade. A nova abordagem de Chapo parece seguir o mesmo caminho, com o recurso a jovens acad\u00e9micos de credenciais question\u00e1veis, alguns dos quais t\u00eam sido alvo de zombarias e memes nas redes sociais. Este fen\u00f3meno apenas acentua a perda de credibilidade do regime, especialmente entre a popula\u00e7\u00e3o mais jovem, que tem acesso f\u00e1cil \u00e0s redes sociais e se sente cada vez mais distante dos valores tradicionais da pol\u00edtica institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No fundo, o problema central de Chapo e do seu governo reside na falta de apoio das bases sociais. As classes trabalhadoras e as classes m\u00e9dias, elementos essenciais para a consolida\u00e7\u00e3o do poder, ainda n\u00e3o est\u00e3o mobilizadas para apoiar o regime. Esta aus\u00eancia de apoio popular configura uma fragilidade pol\u00edtica grave. O governo de Chapo parece estar mais preocupado em assegurar a legitimidade institucional do que em conquistar a aceita\u00e7\u00e3o das massas. Isso pode ser um erro fatal, como questiona a voz cr\u00edtica do jovem artista e activista Refiller Boy, que cantou: \u201cmita fuma kandjani, a xitsungu a xi mi lavi \u2013 como pensam governar sem o apoio do povo?\u201d Este questionamento, que ecoa nas ruas, reflecte a desconex\u00e3o entre o regime e o povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em vez de se focar exclusivamente na legitimidade institucional, Chapo e o seu governo precisariam de uma estrat\u00e9gia mais inclusiva, que privilegiasse a constru\u00e7\u00e3o de um pacto social genu\u00edno. Ignorar as ruas e a base social pode ser um erro fatal. Sem um apoio substancial da popula\u00e7\u00e3o, mesmo que a diplomacia internacional continue a garantir apoio, o regime de Chapo estar\u00e1 sempre vulner\u00e1vel. A qualquer momento, pode haver uma viragem, e a fragilidade do governo pode resultar na sua queda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Portanto, a batalha por uma legitimidade verdadeira, n\u00e3o apenas institucional, mas tamb\u00e9m popular, continua a ser o grande desafio do governo de Daniel Chapo. Se n\u00e3o for conquistada, a estabilidade pol\u00edtica ser\u00e1 apenas uma ilus\u00e3o, e o regime estar\u00e1 condenado a viver com a constante amea\u00e7a de contesta\u00e7\u00e3o nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><em>*Boaventura Monjane. Jornalista. Investigador Associado no Institute for Poverty, Land and Agrarian Studies, University of the Western Cape. Membro co-fundador e Director Executivo da Alternactiva &#8211; Ac\u00e7\u00e3o Pela Emancipa\u00e7\u00e3o Social.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A investidura de Daniel Chapo como presidente de Mo\u00e7ambique foi marcada por uma evidente aus\u00eancia de chefes de Estado e l\u00edderes internacionais, o que gerou um forte cepticismo sobre a sua legitimidade. No entanto, ao longo do tempo, Chapo tem vindo a conquistar uma legitimidade, ainda que prec\u00e1ria, no plano diplom\u00e1tico e institucional. Este processo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[30],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8035","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-opiniao"},"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8035"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8035\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8040,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8035\/revisions\/8040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/savana.co.mz\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}