Por trás das estatísticas da pobreza extrema em Moçambique há rostos, nomes e silêncios. Ana (nome fictício) tem 22 anos, reside no bairro de Marracuene, é mãe de uma menina de três anos e vive numa casa onde a escassez dita os dias. Divide o pouco espaço com a mãe, uma mulher idosa, com sérios problemas de saúde e mobilidade reduzida. O pai faleceu em 2022 e, com a sua morte, agravou-se uma realidade já marcada pela privação. Desde então, a sobrevivência tornou-se ainda mais frágil. Há dias em que o jantar é apenas chá; há noites em que o sono chega para enganar a fome, enquanto o pouco alimento disponível é reservado à criança.
A história de Ana começa muito antes da maternidade. Ainda adolescente, com apenas 15 anos, empurrada pela pobreza extrema e pela fome recorrente, viu-se forçada a fazer escolhas que não pretendia.
Com o pai separado da mãe, Ana sentia a sua ausência ainda antes da morte dele, porque as dificuldades eram tão grandes que se viu obrigada a assumir responsabilidades de adulta muito cedo. Um vizinho mais velho oferecia comida em troca de “favores sexuais”. Ana aceitou, não por vontade, mas por necessidade.
“Em casa passávamos muitas necessidades, muitas mesmo, até para comer era um problema”, recorda. O pouco dinheiro que o pai enviava era insuficiente e irregular. Apesar disso, era ele quem pagava a escola. Quando morreu, em 2022, Ana perdeu também a única garantia de continuar a estudar. Estava a frequentar a 10.ª classe, mas foi obrigada a abandonar os estudos por falta de dinheiro para transporte, fichas e outros materiais.
Para conseguir algum dinheiro, Ana passou a “namorar” em troca de apoio financeiro, uma prática silenciosa e normalizada entre raparigas pobres, alimentada pela desigualdade de género e pela ausência de alternativas.
Aos 16 anos iniciou uma relação com o homem que viria a ser o pai da sua filha. O casal passou a viver junto, mas o relacionamento foi marcado por humilhações, infidelidades públicas e abandono material. Grávida, Ana passou fome dentro da própria casa do companheiro. Saiu da maternidade sem roupa para a bebé, que foi envolta numa capulana improvisada. O pai da criança nunca assumiu as suas responsabilidades de forma consistente e acabou por rejeitar a filha.
“Os dias em casa do pai da minha filha eram muito difíceis. Passei fome antes e depois do parto, muitas humilhações e falta de respeito. Ele trazia amantes para dentro da casa onde nós vivíamos. Por vezes dormia com outras mulheres na nossa casa, eu observando tudo. Por não aguentar aquele ambiente, tomei a dura decisão de voltar à casa da minha mãe”, narra.
Acrescentou que o pai da criança nunca deu assistência à própria filha. A criança, hoje com três anos, não conhece o pai, que não se preocupa com isso.
O regresso à casa da mãe não significou alívio. Pelo contrário, as dificuldades agravaram-se. A mãe sofreu um acidente grave no pé esquerdo e perdeu a capacidade de trabalhar. Sem rede de apoio e com uma criança pequena ao colo, Ana procura emprego, mas não encontra.
“Cada dia para nós é sobreviver. Há dias em que não comemos para que a menina possa comer alguma coisa. Há dias em que só tomamos chá e, para ela, aquilo é uma alegria muito grande”, resume.
Em silêncio, para que a família não passasse fome, Ana voltou a recorrer à venda do próprio corpo para ganhar dinheiro e colocar pão na mesa.
“O dinheiro que conseguia mal dava para uma papinha, ou um pouco de farinha de milho para uma xima, ou um pão”, explica, acrescentando que tudo era feito em segredo, carregado de vergonha e dor. Os banhos repetidos ao chegar a casa não apagavam o sentimento de estar “suja”, nem os traumas acumulados.
As marcas emocionais permanecem profundas. Ana fala do medo constante, da desconfiança em relação aos homens e do bloqueio emocional que a impede de imaginar um relacionamento devido aos maus-tratos e ao abandono do seu então namorado. Hoje está há mais de um ano sem parceiro. “Só de pensar em alguém me tocar, eu já penso que vai abusar de mim”, confessa.
Ana sabe que repete, involuntariamente, um ciclo de abandono e vulnerabilidade. Mas recusa-se a aceitá-lo como destino para a filha. “Quero que a minha filha tenha um futuro diferente”, afirma. O conselho que deixa a outras jovens é simples: “Pode parecer que as coisas vão piorar, mas vão melhorar. O seu corpo é o seu templo, independentemente do que aconteça. Guarde-se, porque eu também gostaria de me ter guardado até hoje, mas as coisas da vida levaram-me a um patamar que nem imaginava. Lutem. Não desistam”.
Para o psicólogo Timóteo Da Rocha, histórias como a de Ana revelam como o abandono paterno, a pobreza extrema e a ausência de apoio social comprometem gravemente a saúde mental de jovens mulheres. Segundo ele, a incerteza diária — não saber se haverá comida amanhã, como se deslocar ou como cuidar de um filho — destrói a auto-estima e empurra adolescentes e mulheres para situações que não reflectem escolhas livres.
“Quando a saúde mental já está fragilizada, a pobreza torna-se ainda mais violenta. A fome, a incerteza do amanhã, a falta de condições básicas abala a auto-estima e sujeitam a pessoa a fazer aquilo que nunca desejou. A pessoa faz o que for possível para sobreviver, mesmo que isso contrarie os seus valores”, explica Da Rocha, alertando também para os impactos psicológicos duradouros do abandono, como a dificuldade em estabelecer relações afectivas estáveis e a dependência emocional.
A secretária executiva do Observatório das Mulheres, Quitéria Guirengane, enquadra a história de Ana num fenómeno mais amplo: a feminização da pobreza. Dados do Inquérito aos Orçamentos Familiares (IOF) 2022, do Instituto Nacional de Estatística, mostram que 41,8% das mulheres fora do mercado de trabalho afirmam estar a estudar, enquanto 24,4% dizem não trabalhar por cuidarem de crianças e 6,3% por cuidarem de familiares doentes ou idosos. Outros 10,3% consideram-se “muito velhas” para trabalhar, evidenciando a discriminação etária que afecta sobretudo as mulheres, inclusive no trabalho doméstico.
Segundo Guirengane, estes números ajudam a explicar por que razão tantas jovens, como Ana, abandonam a escola e ficam presas a ciclos de dependência económica. A maioria das mulheres acaba concentrada na economia informal, na machamba, no Mukhero ou na venda ambulante, sem protecção social nem rendimento estável, enquanto outras são simplesmente excluídas do emprego por serem consideradas “velhas demais” ou por terem filhos pequenos. Em contextos de deslocação forçada, reassentamento ou insegurança, a vulnerabilidade agrava-se ainda mais, e a fome, a falta de material escolar ou de protecção transformam-se em factores de risco acrescido para a exploração sexual, com o corpo feminino a ser visto como moeda de troca para acesso a comida, água ou protecção, uma realidade que, segundo a activista, não pode continuar a ser normalizada.
“Não se trata de falhas individuais, mas de um sistema que empurra mulheres para a sobrevivência extrema”, sublinha. (Por Helena Madança)