Humberto Sartone, o proprietário do badalado Complexo Residencial Kaya Kwanga, em Maputo, está em greve de fome desde que foi detido nesta terça-feira por agentes do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC). Sartone, preso no Estabelecimento Penitenciário Especial de Máxima Segurança da Machava (BO), foi detido conjuntamente com o seu sócio em vários negócios Armomed Mohamed (Shabir) e o filho deste, Anass Tarmomed. Ainda nesta terça-feira, foi recolhido Saleem Karim, um antigo presidente da Comunidade Maometana. Nesta sexta-feira, através de um comunicado, o Serviço Nacional Penitenciário (SERNAP) confirmou a greve de fome iniciada por Sartone.
“O cidadão ora referido, desde a sua entrada (21 de Abril) recusa-se voluntariamente a ingerir alimentos, mantendo a referida posição até ao presente momento, facto que gerou preocupação por parte da direcção da unidade penitenciária”, lê-se na nota do SERNAP, a que o SAVANA teve acesso.
O SERNAP diz ter comunicado à família de Sartone e ao seu advogado “com vista a sensibilizá-lo a abandonar a greve”.
Sartone, que esta tarde está a ser ouvido no Tribunal Judicial da cidade de Maputo para a legalização da prisão, é indiciado de crimes de tráfico, falsificação de documentos, uso de documentos falsos, fraude fiscal, branqueamento de capitais e outras actividades ilícitas.
O empresário italiano, residente em Moçambique há mais de 30 anos, chegou ao Tribunal trajando o uniforme laranja usado na BO. Estava visivelmente debilitado, situação que está a ser atribuída à greve de fome.
O complexo Kaya Kwanga foi, durante décadas, um local central para eventos políticos e judiciais sensíveis. Inúmeros interrogatórios relacionados com o assassinato do jornalista Carlos Cardoso, em Novembro de 2000, o primeiro editor do mediaFAX, publicação propriedade da mediacoop, foram realizados no Kaya Kwanga. O complexo foi o local escolhido pelo então director da então Polícia de Investigador Criminal (PIC), António Frangoulis, para realizar interrogatórios aos arguidos do “caso Carlos Cardoso”, incluindo membros da família Satar.
Sartone manteve, ao longo de décadas, uma forte influência sobre as elites políticas, tornando o complexo um reduto para reuniões de alto nível e decisões de bastidores.
Analistas consideram que a detenção de uma figura considerada por muitos como “intocável”, com fortes ligações à elite política e económica ligada ao partido Frelimo, é um marco no actual esforço de combate ao crime organizado no país.