A introdução do lenacapavir, em finais de Abril ultimo, um medicamento injectável de longa duração para Profilaxia Pré Exposição ao HIV (PrEp), está a atrair a juventude da capital do país a aderir ao novo método de prevenção da pandemia que em Moçambique infectou 2.5 milhões de pessoas.
José Matusse 26 anos, conta que por curiosidade visitou os Serviços Amigos dos Adolescentes e Jovens (SAAJ), para melhor se informar da PrEp injectável, depois de ter visto campanhas publicitárias nos órgãos de comunicação.
Conta que no SAAJ foi explicado que se trata de um método inovador de prevenção do HIV, injectável a cada seis meses, que deve ser combinada com o uso de outros métodos preventivos, como o preservativo, para evitar a infecções de transmissão sexual (ITS). A PrEp não protege também da gravidez.
Matusse fez notar que manifestou o desejo de ser administrado a vacina, tendo sido convidado a fazer, primeiro, o teste rápido de HIV no qual testou negativo. De seguida foi aplicado o medicamento nas coxas, adicionalmente recebeu 4 comprimidos, dos quais dois tinha de tomar na hora e os restantes dia seguinte e a mesma hora.
Manifestou a sua satisfação com a experiência, sublinhando que é um modelo de protecção fidedigno num altura em que o índice de HIV continua preocupante no país e não pretende fazer parte das estatísticas da pandemia.
Matusse disse ser solteiro e leva uma vida sexualmente activa, facto que no seu entender contribui para apostar naquele tipo de método de prevenção enquanto não assume um compromisso de forma séria.
Destacou que a decisão de aderir PrEp injectável deriva do facto de numa das suas múltiplas relações ocasionais, há dois anos, ter rompido a camisinha, deixando o deprimido até a data que testou negativo para o HIV pela segunda vez, num espaço de seis meses.
Madalena Alice* tem 32 anos também decidiu aderir a PrEp injectável em substituição da terapia oral que a considerava mais trabalhava. Disse ser uma mulher de relações ocasionais para garantir o sustento dos seus dois filhos, pelo que não descura da protecção para evitar surpresas desagradáveis.
Está ciente que em paralelo ao lenacapavir deve prosseguir com o planeamento familiar bem como do uso do preservativo, para se prevenir de utras doenças como sífilis, gonorreia, clamídia ou hepatites, mas também da gravidez indesejada.
Segundo Madalena a adrenalina dos finais de semana colocava -a inúmeros desafios parta lidar com método oral e vezes sem conta falhou a medicação.
Recordou que quando iniciou a terapia oral foi lhe atribuída dois frascos de 30 compridos cada o que a deixou bastante perplexa, mas com o encorajamento dos técnicos de saúde conseguiu avançar com a terapia.
Manifestou total satisfação com o fármaco injectável, sublinhando que graças a publicidade nas redes socias e meios de comunicação ficou a saber do lenacapavir.
“ Depois de ver a publicidade na televisão fiquei muito curiosa, conversei com as minhas amigas do txiling e decidimos visitar uma unidade sanitária para nos informar. Fui explicada todo o processo do funcionamento e não hesitei em mudar de terapia porque esta é melhor e menos complexa”, assinalou.
Gustavo Massingue e André Lucas * ambos de 19 anos, escalaram os Serviços Amigos dos Adolescentes e Jovens (SAAJ) do Centro de Saúde de Xipamanine, na última quarta-feira para, finalmente, tomar a vacina lenacapacir depois de algum tempo de espera.
Massinga e Lucas estiverem naquela unidade sanitária no passado de Julho, mas não havia disponibilidade da vacina por conta da alta procura, tendo sido colocados na lista de espera.
Apesar de ainda se contorcerem de dores nas coxas, um efeito secundário momentâneo após a administração da vacina, os dois amigos não se arrependem, destacando que é uma dor que compensa. Garantiram que apesar do desconforto temporário, em Fevereiro do próximo ano (seis meses depois), regressarão a unidade sanitária para tomar a segunda dose.
Lucas é homossexual e olha para vacina sendo bastante importante para uma vida segura.
Alguns pensam que é cura do HIV
A nova terapia de profiláctica de prevenção do HIV, lenacapavir está a registar uma alta procura por parte de jovens, num altura em que o pais é cotado como um dos três mais infectados do mundo. O lenacapavir foi introduzido no sistema nacional de saúde, em Abril ultimo, no lote dos fármacos visando reduzir os riscos de infecção por HIV, colocando Moçambique num restrito grupo de 9 países africanos que introduziram o método.
Estima-se que a vacina beneficie, numa primeira fase, pelo menos 34 000 pessoas, com foco em populações de maior risco. Nesta fase inicial, o fármaco estará disponível gratuitamente em 55 Unidades Sanitárias do Serviço Nacional de Saúde (SNS) da Cidade e Província de Maputo bem como província da Zambézia. Esta decisão tem levantado inúmeras questões acerca da exclusão da província de Gaza que é a mais infectado do país.
Levecha Sacadura é responsável pelo SAAJ ao nível do distrito Municipal Lhamanculo, no Município de Maputo. A nossa fonte confirmou que o SAAJ está receber muitos jovens, que procuram informações sobre o fármaco, o que no seu entender é um importante passo na consciencialização das pessoas no capítulo da prevenção. Detalhou que os jovens, acima de tudo, procuram saber se o método injectável cura o HIV ou previne da gravidez indesejada.
Segundo Sacadura o lenacapavir é método administrado por injecção, duas vezes por ano e destina-se a pessoas com 15 ou mais anos de idade, desde que testem negativo para o HIV e pode constituir uma viragem no âmbito dos esforço de controlo da epidemia no país. Há duas formas de administração: nas duas coxas ou alguns centímetros debaixo do umbigo.
A responsável do SAAJ sublinhou que o teste de HIV é o principal requisito, sendo que na hora faz se o teste rápido para saber do estado serológico. Na mesma ocasião, faz –se a recolha do sangue (hemograma) para o teste PCR, cujo resultado é entregue nas semanas seguintes.
“ Caso o paciente tenha testado positivo no teste PCR a Unidade Sanitária notifica-o através de uma chamada telefonica para uma conversa com os técnicos. É informado que deve suspender a administração da PrEp e começa o TARV. O medicamento injectável não interfere no tratamento TAR”, explicou.
Até ao momento, o distrito municipal Lhamankulo ainda não registou caso de alguém que tenha aderido ao lenacapavir, testando negativo no teste rápido e depois positivo no teste PCR, cujos resultados são entregues nas semanas seguintes.
De acordo com a Levecha Sacadura a introdução do lenacapavir vem aumentar o leque de opções disponíveis de prevenção combinada do HIV em Moçambique, permitindo aos cidadãos aceder a formas cada vez mais eficazes, seguras e ajustadas às suas necessidades.
Fez notar que o cidadão passa a ter a possibilidade de escolha do método que achar melhor, pelo que apesar da introdução do lenacapavir, ainda indivíduos que apostam na PrEp oral.
| Mês | Janeiro | Fevereiro | Março | Abril | Maio | Junho | Julho |
| prEp Oral | 1456 | 2655 | 2196 | 657 | 1020 | 1185 | 1745 |
| Injectável | – | – | – | 6 | 1084 | 1382 | 352 |
Dados de adesão ao método oral e injectável ao nível do Município de Maputo.
O SAVANA contactou o Ministério de Saúde para abordar este assunto, tendo recomendado ao jornal para redigir uma carta. Dito e feito, a carta foi enviada, mas o MISAU não se dignou responder o nosso pedido até a data de publicação da presente matéria.
Encorajar tratamento através das redes sociais
Se por, por um lado, há fortes sinais de esperança no âmbito da prevenção com novos métodos, por outro nota-se iniciativas encorajadoras no tratamento do HIV que vão ao encontro da juventude. É o caso da jovem Ester Ndove, seropositiva, que usa as suas contas nas redes sociais (Facebook, Instagram e Tik Tok) para produzir vídeos ou fazer lives explicando a importância do tratamento anti-retroviral (TARV).
Com um simples clique nas suas páginas ficas a saber da importância do cumprimento dos horários de medicação, como levar uma vida saudável e muito mais.
Ao SAVANA Ndove explicou que a iniciativa surgiu há dois ano, quando o seu namorado e hoje noivo a encorajou a quebrar tabus e gravar vídeos falando do assunto. Aceitou o desafio, mas fala de um princípio um pouco difícil devido a onda de estigma e descriminação que sofria. Ndovinha, tal como se apresenta em algumas das suas contas nas redes sociais, transformou as criticas numa poderosa força e hoje é vista como um exemplo de auto-superação e fonte de inspiração para muito jovens que ficam chocados quando o testam positivo para o HIV. No SAAJ do centro de Saúde de Xipamane onde Ester Ndove começou o tratamento, os técnicos costumam partilhar links das suas páginas com os novos pacientes que testam positivo, de modo particular adolescentes e jovens que ficam em transe depois de saberem do resultado. A iniciativa, explica Levecha Sacadura, visa demonstrar aos pacientes que o facto de ter testado positivo não significa o fim da vida, há mais uma janela de esperança com o tratamento desde que o faça correctamente e levar uma vida saudável.
Ndove disse não saber como contraiu o HIV, pois nasceu saudável, mas teve a doença ainda adolescente, muito antes de começar com vida sexual. Levanta a possibilidade de se ter cortada com um objecto (lamina) usada por alguém seropositivo.
Falou de uma fase difícil de encarar, acima de tudo por não saber quando, como e onde contraiu o HIV. Hoje já superou a situação, o marido dela é ser negativo, tal como a filha do casal. Disse estar feliz na sua relação, apesar dos constantes ataques que o marido sofre por conta da sua condição de saúde. Ndove disse estar fazer um papel bastante importante na consciencialização da juventude acerca da prevenção e tratamento do HIV e clama pelo apoio governamental para continuar com as suas acções.
Jorge Hunguana é activista e pertence ao clube dos “homens campeões” que são seropositivos e tem feito advocacia para encorajar outros jovens que vivem com o HIV a levar uma vida saudável. Conta que quando soube do resultado há um ano, pensou no suicídio, mas nunca faltou lhe coragem. Negligenciou o tratamento nos primeiros dias, alegando que não valia apena viver refém de comprimidos todos os dias. O seu peso foi baixando drasticamente e um mal-estar geral tomou conta dele. A família levou o de volta a unidade sanitária onde foi reavaliado e sensibilizado por outros pares. Conta que partilharam vídeos da Ester Ndove e da mana N´wete (organização da sociedade civil) com ele e ganhou consciência de que é possível viver com a doença.
Situação preocupante
Dados do Conselho Nacional de Combate ao Sida (CNCS), indicam que Moçambique conta uma população estimada em 2,5 milhões de pessoas que vivem com o HIV e uma taxa de sero prevalência de 12,5 %, em adultos dos 15 aos 49 anos de idade, o que coloca o país no top 3 dos mais infectados do mundo.
Daquele total cerca 2.300.000 são adultos e 155.000 crianças com menos de 15 anos de idade que vivem com a pandemia. Em 2025 cerca de 119.000 mil mulheres grávidas viviam com HIV, de acordo com o CNCS.
Do total da população infectada, os dados do CNCS apontam ainda que 90% conhece o seu estado serológico, dos quais 84% estavam em TARV e dos que faziam TARV apenas 77% tinham atingido a supressão da carga viral.
Enquanto isso, dados patentes na página da ONUSIDA apontam que em 2024 moçambique tinha 2.4 milhões de pessoas vivendo com HIV, das quais 2 milhões aderiam ao tratamento. A avança ainda que em 2024 Moçambique registou uma média de 220 novas infecções por dia e que a cada dia 120 pessoas perderam a vida, em média, em consequência daquela pandemia, o que segundo contas do jornal pode corresponder a cerca de 40 mil pessoas em todo o ano.
De acordo com dados do CNCS, referentes ao ano 2025, as províncias da zona do sul do país são as mais afectadas, sendo Maputo Cidade com 19,4%, Maputo província com 16%, província de Gaza com 23%.
Na ordem inversa, as províncias com menos casos são: Niassa com 5,6% e Tete com 7.3%, Nampula, com 7.8% e Cabo Delgado com um registo de 8.4%. Em 2025, 38.000 pessoa perderam a vida devido ao HIV.
Mauro Sitoe, responsável da área de Adolescentes e Jovens no CNCS, aponta que o país registou 77 mil novas infecções, em 2025, tendo a província da Zambézia registado mais casos, na ordem de 17,484 casos registados.
Fez notar que o país conta com 1.928 Unidade Sanitárias, das quais 1.843 correspondente a 96%, oferecem Tratamento Anti-retroviral (TARV).
Apesar dos resultados continuarem longe do desejado, Sitoe diz que muito foi feito no âmbito da prevenção e tratamento do HIV no país, destacando a redução o número de novas infecções que saiu 150.000, em 2010, para 98.000, em 2020 uma redução de mais de um terço, tal como aponta o “Roteiro Nacional de Prevenção do HIV 2022-2025”.
Destacou a criação de um task force para lidar com este assunto que é o CNSS. Avançou que ao nível do MISAU foi criado um programa nacional de combate ao HIV para além de programas específicos de saúde escolar para adolescentes e jovens,
Os indicadores do HIV, segundo Sitoe, demonstram, infelizmente, que ela continua sendo um problema de saúde pública no país, pelo que olha com esperança a introdução do lenacapavir e outros métodos da PrEp para redução da cadeia.
No entanto, apela para um forte investimento na comunicação para que ela chegue até a zonas mais recôndita do país, de modo a evitar equívocos de que a PrEp cura o HIV. Educar os adolescentes e jovens que ainda é preciso apostar na dupla protecção, porque o lenacapavir e a PrEp oral protegem do HIV, mas não de ITS´s e gravidezes indesejadas.
Falta de recursos é preocupante
Por seu turno, Rogério Simango do Observatório do Cidadão para Saúde (OCS), manifestou a sua preocupação com a insuficiência de fundos para atender aos programas ligados ao HIV, com riscos de deitar a baixo as conquistas alcanças até ao presente momento.
O anúncio da saída do governo americano (PEPFAR) no financiamento aos programas deste sector é um claro exemplo de que os recursos serão cada vez mais exíguos, apesar da permanência do Fundo global que também tem apoiado. Para o presente ano, estava previsto, segundo Simango, um orçamento de cerca de USD 676 milhões para o sector do HIV. Mas até ao mês de Julho a previsão de recursos disponíveis era de USD 322 milhões, cerca 47,6%.
“Moçambique regista níveis alarmante de crescimento do HIV, mostrando se necessário mais acções de prevenção. A saída de parceiros pode gerar um défice na capacidade de resposta devido, tendo em conta as limitações do nosso próprio estado que sempre comparticipou com 5% do orçamento para aqueles programas”, disse.
É seu entender que o cenário parece um pouco sombrio, tendo em conta as incertezas da continuidade de vários programas do HIV, desde o tratamento, prevenção, fornecimento de medicamentos, o suporte aos activistas que actuam a níveis mais descentralizado, apoiando directamente as comunidades.
Simango considera a PrEp injectável um método importante que vai robustecer a componente de prevenção, mas alerta para que isso não implique o abandono de outros métodos que temos a disposição e que funcionam muito bem, tendo em conta a extensão do país e a redução do orçamento. Deste modo, aponta a combinação de métodos de forma gradual até que as comunidades tenham o devido conhecimento aliado a capacidade interna de resposta as necessidades. (Argunaldo Nhampossa)
*nomes fictícios a pedido dos entrevistados