Nalda Matine, hoje com 23 anos, tinha o sonho de estudar, formar-se e tornar-se médica para salvar vidas. Esse lindo sonho foi interrompido aos 13 anos de idade, quando contraiu uma gravidez precoce, uma criança que tinha de cuidar de outra criança. A gravidez precoce causou-lhe uma fístula obstétrica, condição que mudou drasticamente o rumo da sua vida.
Órfã de pai e mãe aos três meses de vida, Nalda Matine cresceu sob os cuidados da sua irmã mais velha, a quem aprendeu a chamar de mãe. Residente no bairro da Polana Caniço, cidade de Maputo, era estudante e religiosa.
Após concluir a 7.ª classe, Nalda deu continuidade aos seus estudos na 8.ª classe, num internato localizado no posto administrativo de Mapinhane, distrito de Vilanculo, província de Inhambane. Contudo, foi obrigada a regressar a Maputo devido a problemas de saúde.
Foi nesse lapso de tempo que, aos 13 anos, uma gravidez precoce chegou de forma silenciosa, sendo descoberta apenas aos cinco meses, sem que houvesse muitos mecanismos para um aborto seguro. O medo do julgamento da família, da comunidade, da igreja onde cresceu e do futuro pairou sobre ela no momento em que tomou conhecimento da gravidez.
“Quando soube que estava grávida, muita coisa mudou na minha mente. Não tinha consciência do que é uma gravidez, do que é gerar um ser dentro de mim. Senti-me um pouco banida de certas regalias e de certas coisas”, recorda.
Acrescentou que teve apoio no princípio, mas este vinha misturado com culpabilização, pressão e decisões tomadas por outros.
Quando a gravidez foi confirmada, os familiares trataram de fazer as suas malas e levá-la para Inhambane, para encontrar a família do pai da criança. O que parecia ser apenas uma “conversa” transformou-se, na prática, numa imposição.
“Questionaram-me de quem era a gravidez. Então, eu disse que a pessoa não vivia aqui em Maputo e que o tinha conhecido em Inhambane, no período em que estudava lá, no internato”, conta.
Enquanto prestava esses esclarecimentos, Nalda relata que os familiares iam arrumando as suas malas e que, juntamente com um representante da família, partiram num autocarro rumo a Inhambane. “Chegados lá, fomos à casa do jovem que, na altura, tinha 22 anos, e deixaram-me lá. Eu já via aquilo de forma indirecta, como se fosse uma obrigação de ser submetida a um casamento prematuro”, explicou.
Grávida, vivendo maritalmente e ainda criança, Nalda abandonou a escola na 8.ª classe. Não teve acompanhamento psicológico, nem orientação adequada durante a gestação. O parto foi difícil. O seu corpo pequeno não estava preparado. O medo da morte tomou conta da sua mente. Chegou a escrever uma carta de despedida, pedindo que cuidassem da filha que estava para nascer.
“Era uma criança que ia receber outra criança. Não tive acompanhamento psicológico durante a gestação, para que, durante o parto, não tivesse confusões. Eu pensava que ia morrer, porque as dores das contracções durante o parto são muito fortes”, recorda.
Uma vida de dores
Após o primeiro parto, começaram a surgir sinais de que algo não estava bem: perda involuntária de urina e fezes, mau cheiro constante, sem dor e sem controlo. Nalda não compreendeu de imediato o que estava a acontecer. Normalizou o sofrimento, e os sinais acabaram por desaparecer. Apenas dois meses após o nascimento do segundo filho, em 2022, começou a notar novamente os sinais, desta vez de forma mais agressiva. Veio então o diagnóstico: fístula obstétrica, uma condição grave, evitável, mas ainda comum em contextos de pobreza, gravidez precoce e partos prolongados sem assistência adequada.
“A fístula começou ainda na primeira gestação. Eu sentia um pouco de escape das fezes, mas limpava-me. Depois, tudo ficava pela parte da frente e eu pensava que talvez não me tivesse lavado bem. Aquilo acabou por alastrar-se. Uma criança não observa algo diferente que aparece no corpo, normaliza, pior ainda quando é no pós-parto. Achei que era por causa do parto. Normalizei aquilo até que acabou por passar”, assinala.
Acrescentou que, quando teve o segundo filho, o parto foi muito difícil. “Voltei para casa e comecei a notar sinais da fístula, que tinham sido menos agressivos na primeira gestação, quando comparados com a segunda”, revelou.
A fístula roubou-lhe mais do que a saúde. Atingiu a sua dignidade, o seu dia-a-dia e a sua maternidade. “Eu trocava a fralda do bebé e depois tinha de trocar a minha. Aquilo criou-me muitos traumas, difíceis de esquecer, porque eram dores em cima de dores”, conta. Mesmo assim, não parou, pois tinha de contribuir para colocar o pão na mesa: trabalhou em quintais, lavou roupa, carregou água e lenha. Criou os filhos enquanto convivia com a dor, o desconforto e o estigma.
Entre 2022 e 2025, Nalda foi submetida a quatro cirurgias para a correcção da fístula. Viveu três anos com uma colostomia, uma cirurgia que cria uma abertura no estômago para desviar as fezes do ânus para uma bolsa colectora, fazendo as necessidades pela barriga, sem apoio psicológico, social ou financeiro. “O mais difícil foi adaptar-me àquela vida depois da primeira cirurgia, que era fazer as fezes pela barriga, e isso aconteceu durante três anos, desde 2022”, conta.
Hoje, com 22 anos e mãe de dois filhos, Nalda superou as adversidades causadas pela fístula. Tudo voltou à normalidade depois de longos anos de batalha. Compromete-se a fazer advocacia para que outras meninas não vivam aquilo que ela viveu. “Não quero que existam outras Naldas, porque eu sei o que vivi e senti na pele. Não fui ouvida e não gostaria de ver outra mulher naquela condição”, afirma.
Apelou à aposta na prevenção como a melhor via, sublinhando que esta começa em casa, com diálogo entre pais e filhos, apoio psicológico aos adolescentes, menos imposição e mais escuta.
Mais riscos para menores de 18
Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), cerca de 500 mil mulheres e raparigas vivem actualmente com fístula obstétrica em todo o mundo, um número que se mantém praticamente estável desde 2024.
Segundo o médico gineco-obstetra Elias Minasse, a fístula obstétrica é, em termos simples, uma comunicação anormal entre órgãos que nunca deveriam estar ligados. O tipo mais comum é a fístula vesico-vaginal, quando há ligação entre a bexiga e o órgão genital feminino, provocando perda contínua e involuntária de urina. Existe também a fístula recto-vaginal, em que as fezes passam pelo órgão genital feminino, bem como formas menos frequentes, como a fístula uréter-vaginal, quando há comunicação entre o uréter e o órgão genital feminino.
De acordo com Minasse, na maioria dos casos a causa principal é o trabalho de parto prolongado e obstruído, quando o bebé permanece muitas horas a pressionar os tecidos da mãe sem conseguir nascer. Essa pressão contínua leva à morte dos tecidos e, dias depois, à abertura que dá origem à fístula.
“Quando uma mulher entra em trabalho de parto e não tem contracções eficazes, quando o canal do parto é estreito ou incompatível com o tamanho do bebé, o que chamamos de incompatibilidade céfalo-pélvica, o risco aumenta muito. Se essa situação não for diagnosticada a tempo, a fístula torna-se quase inevitável”, explica o médico gineco-obstetra.
Embora a fístula possa ocorrer em qualquer idade, as raparigas com menos de 18 anos estão entre as mais vulneráveis. O corpo ainda não está totalmente preparado para o parto, especialmente a pélvis.
“Uma rapariga de 13, 14 ou 15 anos pode engravidar, mas isso não significa que o seu corpo esteja preparado para parir. É por isso que encontramos muitas mulheres com fístula que engravidaram pela primeira vez ainda na adolescência”, sublinha o especialista.
Minasse explica ainda que a falta de acesso a unidades sanitárias, sobretudo nas zonas rurais, agrava o problema. Em algumas comunidades, uma mulher grávida precisa percorrer 10, 15 ou até 20 quilómetros para chegar a uma unidade sanitária. Muitas acabam por tentar o parto em casa, sem acompanhamento profissional.
“Sem diagnóstico oportuno, o parto prolonga-se, a pressão aumenta e os danos tornam-se irreversíveis. Se o parto tivesse ocorrido numa unidade sanitária, bastaria uma avaliação adequada para decidir uma cesariana e evitar a fístula. A fístula é uma condição evitável”, afirma Minasse.
De acordo com o especialista, o diagnóstico da fístula é, muitas vezes, clínico. A principal queixa é a perda contínua de urina ou fezes, sem controlo. Testes simples, como o do azul-de-metileno, uma das formas de confirmar o diagnóstico, permitem identificar a comunicação anormal entre os órgãos. Em centros de referência, pode ser realizado o exame de cistoscopia, que permite avaliar a extensão da lesão e definir o tratamento.
Segundo explica Minasse, apesar de não ser uma emergência médica imediata, a fístula é uma emergência social e humana. As mulheres afectadas enfrentam estigma, isolamento, abandono conjugal e sofrimento psicológico profundo. Muitas deixam de frequentar a escola, o trabalho e a vida comunitária. A história de Nalda não é apenas sobre dor. É um alerta. Um retrato cru das consequências da gravidez precoce, do casamento forçado e das falhas no sistema de protecção à criança. Mas é também uma história de resistência, de maternidade e de esperança. (PorHelena Madança)