O colapso do império colonial português em África, marcado particularmente pela independência de Moçambique e Angola, transformou de forma radical a configuração geopolítica da África Austral, região que extremistas brancos consideravam o último baluarte do racismo no continente.
Antes da independência, Moçambique e Angola completavam o eixo do colonialismo e do racismo em África. A Rodésia (hoje Zimbabwe), se rebelara da coroa britânica em 1965, implantando-se como uma república independente governada por colonos brancos, com a exclusão da maioria negra. A Namíbia tinha sido uma colónia alemã até à derrota da Alemanha na primeira guerra mundial, em 1918, passando a ser administrada pela África do Sul, sob mandato das Nações Unidas.
A África do Sul havia alcançado a independência da Grã-Bretanha em 1910, mas nessa altura ainda não se tinha declarado marcadamente como um sistema de segregação racial, que só veio a acontecer em 1948. Como parte dos aliados na segunda guerra mundial, a África do Sul havia desempenhado um papel preponderante para a criação da Organização das Nações Unidas, pelo que a confiança para administrar a Namíbia terá sido um acto natural.
A declaração dos novos regimes em Moçambique e Angola como marxistas-leninistas, abertamente sob a esfera da extinta União Soviética, não só colocava em causa o modelo de economia livre que predominava na região, como também a própria sobrevivência dos regimes minoritários brancos.
Da parte dos Estados Unidos e seus aliados, embora fosse necessário instalar um regime maioritário na Rodésia, conceder a independência à Namíbia e pôr fim ao apartheid na África do Sul, impunha-se que tal fosse alcançado num quadro em que não fossem ameaçados os privilégios das populações brancas nesses países, preservando-lhes ainda o seu modelo de desenvolvimento capitalista.
Estas eram algumas das questões que o então Secretário de Estado americano, Henry Kissinger, levava para o seu encontro na noite de 25 de Abril de 1976, com o presidente tanzaniano Julius Nyerere, no palácio presidencial em Dar es Salaam.
A conversa entre Nyerere e Kissinger consta de uma transcrição já desclassificada do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Tanzania, a que o SAVANA teve acesso.
Depois das formalidades iniciais, Kissinger explica a Nyerere os objectivos da sua visita, afirmando que o seu anfitrião teria tido acesso a informações que indicavam que a visita pretendia apoiar esforços para a criação de um movimento de libertação alternativo para a Rodésia, que seria apoiado pelos americanos, ou que tinha também como objectivo apoiar o regime de Ian Smith.
“No que respeita a este último caso”, clarifica Kissinger, “estou preparado a colocar em temos inconfundíveis o poder dos Estados Unidos a favor da libertação da Rodésia, de modo que Smith e (John) Vorster não se enganem”.
“Em segundo lugar, não queremos ver blocos em África. A União Soviética e os Estados Unidos não devem procurar estabelecer blocos em África porque se o fizermos, África será o teatro de guerra de conflitos estrangeiros”, acrescentou Kissinger.
Nyerere responde dizendo que “o problema é o colonialismo clássico na Rodésia, ou com o nosso amigo Vorster, o racismo. É a nossa maior dor de cabeça. Vivemos com ela. Tentamos resolvê-la. Não o podemos fazer sem o apoio ou pelo menos o entendimento das grandes potências. E para um continente como África, a libertação não é suficiente; precisamos de desenvolvimento económico. Penso que nós na Tanzania estamos realmente no Quarto Mundo quando nos colocam em categorias”.
Kissinger explica como os Estados Unidos poderiam apoiar no processo de libertação na África do Sul, Namíbia e Rodésia, mas aponta que o envolvimento de forças estrangeiras em Angola é um factor que complica ainda mais a situação.
Nyerere responde: “Esse foi sempre o meu ponto de vista”, e acrescenta que face aos problemas prevalecentes na região, “tivemos de definir o que é que estamos a tentar fazer (…) Demos à África do Sul o facto de que era um Estado independente – mas não fizemos a distinção entre a Namíbia e outros”.
Sublinhou que “as nossas prioridades são a Rodésia e a Namíbia. A África do Sul é mais difícil. Os casos da Rodésia e da Namíbia são mais claros”.
Depois de tentar clarificar ainda mais a posição dos Estados Unidos, Kissinger refere-se a um discurso programado para dentro de dias em Lusaka, e questiona Nyerere se concorda que ele inclua um apelo aos países vizinhos para fecharem as suas fronteiras com a Rodésia. Moçambique já tinha cortado os laços com a Rodésia a partir de 3 de Março de 1976.
É importante sublinhar que ao se rebelar contra a coroa britânica, a Rodésia passou também a ser vista com alguma hostilidade pelos países que tinham fortes laços com Londres, incluindo todos os membros da Commonwealth.
Nyerere concorda com a proposta de Kissinger, mas aponta que Seretse Khama, então presidente do Botswana, estará a calcular os custos.
Kissinger: “Vou me referir a eles – sem mencionar o nome – para o fazerem, e depois prometer-lhes ajuda americana”. Acrescentou que a África do Sul pode provar que é um país africano recusando-se a apoiar a Rodésia.
Nyerere concorda, e Kissinger pergunta: “O que pensa do presidente (Samora) Machel? Gostaria de me encontrar com ele, mas que tal encontrar-me com ele na (conferência da) UNCTAD [Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento]”.
O presidente tanzaniano não desenvolve a conversa, limitando-se apenas a responder que Kissinger poderá encontrar-se com pessoal moçambicano na UNCTAD.
Kissinger: “Não é algo importante para mim, mas penso que será desmoralizante para Smith se eu tivesse contactos visíveis com líderes negros. Estarei em Nairobi (…) Altos funcionários – o presidente, ou quem for que seja. Eles não teriam de dizer que estão lá para se encontrarem comigo”.
Nyerere: “Não tenho certeza que consigo ter o seu presidente, mas tenho certeza de que posso conseguir o seu pessoal superior. Você mencionou três coisas, que são muito importantes”. Prossegue, recapitulando que Kissinger teria dado garantias de que os regimes minoritários brancos não devem esperar o apoio dos Estados Unidos, que este país não estava à procura de um processo alternativo ao dos países da Linha da Frente (apoiando grupos rivais) e que apoiava as sanções contra a Rodésia.
E prossegue: “Muito francamente, para nós, a Zâmbia e Moçambique este é o nosso novo receio. Não tanto de que vão apoiar os regimes brancos, mas que poderão estar a tentar construir algo vosso – já disse isto aos britânicos – para dizer que isto é nosso”.
Nyerere justifica os seus receios referindo-se a um encontro realizado entre Vorster e o então presidente zambiano, Kenneth Kaunda, em Victoria Falls.
“Sabíamos qual seria a reacção africana”, disse Nyerere. “Sabíamos o que a África do Sul queria – uma zona de tampão amigável se uma solução fosse alcançada. Sabíamos disso, mas queremos regime de maioria. Os objectivos não eram os mesmos (…) Mas fracassou porque Smith não está preparado. Agora apoiamos os combatentes da liberdade. Mas somos a mesma gente. Não pensem que somos inimigos dos britânicos. Já disse isso aos britânicos”.
Kissinger transporta a conversa para Angola, e diz que se os soviéticos tivessem apenas prestado apoio aos combatentes da liberdade, “não teríamos feito nada. Mas quando se trata de equipamento massivo e forças externas, tínhamos de abordar a questão no contexto das rivalidades entre as grandes potências. Tenho a impressão de que não ficou satisfeito (com o envolvimento soviético em Angola). Não precisa de me responder”.
Nyerere: “Oh, vou responder. Não queremos que as grandes potências se entrincheirem em África. Quando uma intervém, a outra fará o mesmo”.
Kissinger: “Quanto à África Austral, seremos influenciados pelo seu pensamento. Teremos de o fazer um passo de cada vez. Primeiro, Rodésia, depois Namíbia, e só depois podemos confrontar a África do Sul. Precisamos do apoio deles na Rodésia, e a sua tolerância na Namíbia. Mas no meu discurso vou dizer que estamos a lutar pelo fim da discriminação na África do Sul (…)”.
Kissinger volta a insistir sobre Moçambique, ao que Nyerere responde: “Ajudamos a edificar a Frelimo. Fomos nós e a China”.
Kissinger: “E notou que nunca nos opusemos a isso”.
Nyerere: “As nossas relações são de amizade. Não temos o mesmo sistema que o deles. Não fizemos uma guerra de guerrilha. Fizemos uma pequena agitação – foi muito britânico”. Sugere depois que os britânicos não percebem muito bem o que está a acontecer em Moçambique, ao que Kissinger responde: “Nem eu”.
Nyerere: “Mas damo-nos muito bem com eles. Eles respeitam muito os chineses por terem construído a Frelimo”.
Kissinger: “Nós respeitamos os chineses”.
Nyerere: “Mas veja que discordamos dos chineses no que diz respeito a Angola. O embaixador da China estava sentado aqui mesmo. Eu disse-lhe que temos de discordar. Dói quando países amigos discordam. Discordamos da Zâmbia também. Dói muito”.
Kissinger: “Claro que nós concordamos mais com a Zâmbia”.
Nyerere: “Sim, concordaste com os meus amigos mais do que eu! Podemos continuar amigos, mesmo quando discordamos um do outro? Falou do meu amigo (Samora) Machel. O sistema deles não é o nosso”.
Nyerere referia-se ao momento em que a Zâmbia se opôs à decisão da Organização de Unidade Africana de reconhecer o MPLA como único e legítimo representante do povo de Angola, em detrimento dos outros dois movimentos de libertação do país, nomeadamente a UNITA e a FNLA.
Kissinger: “Disse que vai enviar uma mensagem para Moçambique”.
Nyerere: “(…) e a mensagem poderá, de facto, ser sobre o seu discurso em Lusaka. Vou lhes dizer para mandarem alguém – o ministro dos negócios estrangeiros.
Kissinger: “Deve ser uma figura política, apesar da reunião ser sobre questões económicas”.
A conversa mostra os vários meandros diplomáticos dos anos 1970, e que culminaram com o fim do apartheid na África do Sul, a independência da Namíbia e do Zimbabwe, resultando, em parte, no nascimento da SADC. Espelha, acima de tudo, a clareza dos líderes políticos de então, incluindo a estrita adesão ao princípio de que nenhum país se deveria considerar livre sem que os outros estivessem também livres.