O primeiro dos setes dias da nova ronda de manifestações convocadas por Venâncio Mondlane, que arrancou na quarta-feira, foi marcado por bloqueio de estradas e incêndio de postos policiais, nas cidades de Maputo e da Matola.
Designada ‘4X4’, esta nova vaga também foi manchada pela morte de cinco pessoas, de acordo com dados fornecidos pela Polícia da República de Moçambique (PRM).
Desde as primeiras horas da manhã desta quarta-feira os manifestantes concentraram-se em bairros periféricos e bloquearam as principais vias da EN1.
Pneus, pedras e contentores de lixo foram usados para fechar as vias, paralisando completamente o trânsito no troço entre Inhagóia e a Brigada Montada, onde nenhum veículo conseguiu mover-se desde as 07:00 da manhã.
Os automobilistas tentaram, inicialmente, alternativas, através dos “becos”, mas os manifestantes controlavam todos os acessos aos bairros que ligam o centro da cidade, impossibilitando qualquer desvio.
Até veículos blindados das Forças de Defesa e Segurança (FDS) ficaram presos no congestionamento.
A maioria dos condutores abandonou os seus carros e seguiu a pé juntos dos passageiros, para os seus destinos, enquanto outros condutores se juntaram aos manifestantes, que exigem a verdade eleitoral.
Nem as tentativas de intervenção por parte de militares e da Polícia de Trânsito, para o desbloqueio das vias, tiveram sucesso.
A situação foi marcada por maior violência na EN4, que liga Maputo e Matola.
No Bairro de Malhampsene, os manifestantes interceptaram um autocarro da empresa privada Lalgy, obrigaram o motorista a estacionar e forçaram os funcionários a sair do veículo.
Para dispersar os manifestantes, a Polícia da República de Moçambique (PRM) recorreu ao uso de balas reais e gás lacrimogéneo, o que intensificou a revolta.
Em resposta, os manifestantes incendiaram o autocarro, utilizando pneus em chamas.
Imagens partilhadas nas redes sociais mostram o veículo completamente destruído, com algumas pessoas a aproveitarem-se da situação, para a retirada das chapas metálicas e peças do veículo.
Os manifestantes dirigiram-se ao Posto Policial de Malhampsene e incendiaram as instalações, deixando o edifício em ruínas.
Na EN4, a portagem ficou paralisada, sem circulação de veículos.
A situação levou alguns cidadãos a realizar actividades insólitas, como lavar e secar roupa na via pública, enquanto outros aproveitaram para fazer exercício físico no meio da estrada.
Por volta das 16:00, os manifestantes começaram a permitir a passagem de veículos, gradualmente, mas o congestionamento se manteve.
Em algumas estradas, os condutores de veículos de instituições públicas e privadas foram obrigados a transportar passageiros.
Segundo os manifestantes, as viaturas públicas pertencem aos moçambicanos, uma vez que reflectem os impostos pagos pelos cidadãos, devendo ser usadas para satisfazer as necessidades de transporte durante os protestos.
No Hospital José Macamo, os serviços de saúde continuaram a funcionar normalmente, apesar das dificuldades de acesso.
Vários pacientes esperaram no jardim do hospital, até ao fim das manifestações e do desbloqueio das vias, às 16:00, para poderem apanhar os transportes públicos e regressar às suas casas.
Interrupção dos exames nas escolas
As manifestações também afectaram a realização de exames em algumas escolas do município da Matola.
Os alunos da Escola Comunitária Daejo, localizada atrás da Escola Secundária Bonifácio Gruveta Massamba, no bairro de Kongolote, na Matola, manifestaram-se em solidariedade para com os seus professores, que aderiram às manifestações, devido à falta de pagamento das horas extras.
Durante a invasão, os alunos arrancaram folhas de exercícios a outros alunos e forçaram a suspensão dos exames.
Os portões da Escola Gruveta Massamba estavam trancados, mas os alunos arrombaram as entradas e, em alguns casos, saltaram os muros.
Entretanto, os exames decorreram normalmente na Escola Secundária da Zona Verde e na T-3, embora muitos alunos tenham percorrido longas distâncias, devido à escassez de transporte em circulação.
No entanto, a polícia fez um balanço preliminar na tarde desta quarta-feira em relação à etapa das manifestações, no geral.
Segundo o porta-voz do Comando Geral da PRM, Orlando Mudumane, as manifestações causaram a morte de cinco pessoas, a destruição completa e parcial de cinco esquadras e a detenção de mais de 100 pessoas. Mudumane afirmou que a PRM continuará a trabalhar para garantir a segurança, a tranquilidade e a ordem públicas.
Entre outros dados apresentados pelo porta-voz, constam a vandalização de escolas e a invasão de quatro esquadras da polícia.
“As manifestações violentas tiveram consequências em 22 escolas, onde os manifestantes roubaram computadores e inviabilizaram a realização de exames, protagonizaram a invasão de quatro esquadras da polícia, onde atearam fogo e permitiram a fuga de mais de 100 detentos”, declarou.