O casco do Coral Norte FLNG entrou na água a 16 de Janeiro de 2026, num estaleiro da Coreia do Sul, como se a história do gás moçambicano fosse apenas uma linha recta de engenharia e cronogramas. O Ministério dos Recursos Minerais e Energia chamou ao momento “um avanço determinante” e um “marco técnico e estratégico” para a valorização dos recursos da Bacia do Rovuma.
A cerimónia foi apresentada como o início de uma nova etapa: a fase de integração dos módulos de produção e processamento. “O lançamento do casco representa um marco de grande relevo”, afirmou o ministro Estevão Pale, ao sublinhar que se conclui a construção da infraestrutura principal e se entra na etapa em que a unidade começa a ganhar os sistemas que irão transformá-la num activo operacional.
O problema é que, em Moçambique, o gás raramente é apenas um projecto. É sempre um teste ao Estado, à segurança, à diplomacia financeira e à capacidade de transformar expectativa em execução. Para perceber o peso político do Coral Norte, é preciso lembrar que este sector esteve, literalmente, por um triz.
Em Abril de 2021, a TotalEnergies declarou força maior no megaprojecto Mozambique LNG, após a deterioração da situação de segurança em Cabo Delgado e a retirada do pessoal do local de Afungi. Foi o momento em que o país percebeu que a promessa do gás podia congelar por tempo indeterminado. Essa força maior tornou se, na prática, um símbolo internacional de risco moçambicano. Mais do que um episódio, foi uma mensagem para financiadores e seguradoras: o investimento podia ser tecnicamente viável e politicamente frágil.
O Coral Norte nasce, em parte, como resposta a esse trauma. Não por resolver o problema de segurança em terra, mas por deslocar o centro de gravidade do risco para o mar. Ao contrário dos projectos em terra, a plataforma flutuante offshore evita parte das vulnerabilidades directas associadas a infra-estruturas e perímetros terrestres. A própria Reuters sublinhou esta diferença, ao notar que o Coral Norte evita os entraves de segurança que têm atrasado os projectos onshore.
Ainda assim, a política do gás continuou a ser política de nervos. Em Dezembro de 2025, o Reino Unido retirou um apoio financeiro relevante ao Mozambique LNG, justificando aumento de riscos desde o compromisso inicial, num momento em que se discutia o regresso do projecto e a necessidade de novo acordo orçamental com o Governo. O sector, mesmo quando avança, avança com investidores a reavaliar, governos a renegociar e instituições a protegerem se do custo reputacional.
É neste ambiente que o Coral Norte se apresenta como um projecto de continuidade e, ao mesmo tempo, como uma peça política. Em Abril de 2025, o Conselho de Ministros aprovou o Plano de Desenvolvimento do Coral Norte, passo essencial para desbloquear o caminho até à decisão final de investimento. O MIREME enquadra o lançamento do casco como consequência directa dessa aprovação e como prova de “execução consistente do calendário”.
Depois, em Outubro de 2025, chegou o momento político decisivo. A Decisão Final de Investimento do projecto Coral Norte FLNG foi oficialmente anunciada pela Eni e pelos restantes parceiros da Área 4, numa cerimónia realizada em Maputo, com a presença do Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, e do director executivo da Eni, Claudio Descalzi. O acto marcou mais do que o fecho de um ciclo técnico e financeiro. Representou um sinal claro de compromisso mútuo entre o Estado moçambicano e os investidores internacionais, num contexto ainda marcado pelas incertezas de segurança e pelos atrasos que afectaram outros projectos de gás no país. A presença do Chefe de Estado conferiu ao anúncio uma dimensão de legitimação política interna e externa, transformando o Coral Norte num teste directo à credibilidade institucional de Moçambique enquanto destino de investimentos estratégicos de longo prazo.
A partir daqui, entram os números, e os números, em política, são sempre uma promessa e um argumento. O MIREME projecta que o Coral Norte, com capacidade de liquefacção de aproximadamente 3,6 milhões de toneladas por ano, elevará a produção total da Bacia do Rovuma para cerca de 7 milhões de toneladas anuais e posicionará Moçambique como o terceiro maior produtor de GNL em África. A Reuters, ao reportar a aprovação governamental do plano, indicou um perfil de produção de 3,55 milhões de toneladas por ano ao longo de 30 anos.
Mas a camada mais importante não é a quantidade. É o que o Estado diz que fará com ela, e a forma como será cobrado quando chegar a hora de cumprir. No comunicado oficial, o ministro Estevão Pale liga o Coral Norte a uma narrativa clássica de Estado desenvolvimentista: receitas fiscais, equilíbrio da balança de pagamentos, capacidade de financiar educação, saúde e infra-estruturas públicas, além de emprego e participação do empresariado nacional.
Noutra frente, a Reuters avançou uma projecção de magnitude política ainda maior: a expectativa de cerca de 23 mil milhões de dólares em receitas fiscais associadas ao Coral Norte e um envelope de cerca de 3 mil milhões de dólares para fornecedores locais e emprego. Num país onde a palavra “receita” é frequentemente sinónimo de disputa, estas cifras não são neutras. Elas criam expectativas na sociedade, ampliam a responsabilidade do Estado e multiplicam o custo político de qualquer falha de governação.
O que muda, então, com o casco na água. Muda que o projecto deixa de ser apenas intenção e passa a ser trajectória. Muda que o Estado ganha uma janela de previsibilidade, algo raro num país que enfrenta simultaneamente choques climáticos, pressões sociais e um histórico recente de crises de confiança. Muda, também, que a política do gás entra numa fase mais exigente. Deixa de ser a política do “vamos atrair investimento” e passa a ser a política do “vamos provar que sabemos gerir”.
E é aqui que o Coral Norte se torna um espelho. Um espelho das capacidades do Estado e das suas fragilidades. Um espelho da promessa de que o gás pode financiar infra-estruturas resilientes num país onde a água, todos os anos, recorda a urgência do planeamento. Um espelho do facto de que a economia pode crescer com projectos offshore, mas a legitimidade cresce apenas quando os ganhos chegam à vida real.
O Coral Norte é, por isso, mais do que um projecto energético. É um teste de soberania prática. Não a soberania do discurso, mas a soberania da execução, da transparência e da capacidade de transformar um ciclo de quase falhanços numa década de resultados. Porque Moçambique já esteve perto demais de ver o gás ficar, outra vez, por um triz.